Menina Vera e Seu Ivan: a conversa que ninguém ouviu

Por: Viviane de Sales

Com uma incontrolável vontade de chorar pelos sete cantos que Vera se despediu de Ivan, ao descer da carona no ônibus escolar à altura do Instituto Moreira Salles.

Dona Vera, viúva e artista plástica moradora do Horto, não suporta passar uma tarde inteira sequer enfurnada no luxo solitário da mansão onde coleciona as lembranças do casamento mais ou menos feliz e dos sucessos da carreira. O que ela gosta mesmo é de passear entre as árvores do Jardim Botânico, ouvir o canto de quem sobrevoa céus, andar pela calçada feito gente normal com os passos cortados pelos raios de sol.

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O BASEADO NA FICÇÃO DOS FATOS

Por: Viviane de Sales

Já passava das onze. Desfilávamos tranquilos na Ponte Grande indo à casa do Lucas no coração da CDD. Rocinha 2. Parecíamos playboys da conversa aos pés porque fazíamos o caminho inverso dos grupos que iam procurar diversão no baile da Mocidade ou no Barra Music, uma boate construída na favela da Gardênia mas carrega no nome a ideia de que a expansão da Barra ajuda a espantar pobreza.

Na CDD se cresce tendo a Barra como referência de glamour. “Morar na Barra é um sonho!”, já ouvi de muitos. Tio Carlos é o que ficou rico na minha família: escola particular para o filho, sair do país e só anda de carro. Uma vez chegou à loucura de pagar suítes num hotel cinco estrelas na Sernambetiba, distribuindo os parentes.

Descobrir o frigobar e a tecnologia do banheiro foram meus grandes momentos. Ainda era menina demais para achar a vista da sacada mais incrível do que deixar os pés enterrados à beira-mar, contando as ondas de perto.

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Sapataria Botafogo

Por: Viviane de Sales

Domingo. O despertador se tornou um dos objetos mais úteis dos poucos que existem no meu quarto. É um ícone da salvação, mas quando ele toca às seis da manhã no único dia de folga que tenho… Minha vontade é de jogá-lo tão longe quanto possível. É uma raiva que me dá… Perder a razão é quase regra.

Meu quarto é escuro demais. O aluguel deste buraco deveria ser mais barato porque o sol não bate na janela em nenhum momento do dia. À noite, não sei como, entram uns fragmentos bandidos do brilho da lua que deixam certo ar de romantismo. Há três anos levando a vida neste cubículo e parece inacreditável que eu nunca acerte como chegar à janela quando me levanto, nem aproveitando as luzes do computador brilhando na mesa como pontos de referência.

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