– Pula, tio!

Por: Rodrigo Santos

A fumaça já lambia o teto, e as línguas de fogo surgiam ameaçadoras, pelo poço do elevador. Agarrado no janelão, Seu Brito tremia. Olhava para baixo, só via as sirenes e a multidão aflita e excitada pela possibilidade da tragédia.

“Fiquem calmos, nós vamos buscá-los! NÃO PULEM! Não é seguro!” – repetia a voz no megafone. O prédio todo estalava e gemia, junto com Seu Brito.

– Pula, tio! A gente vai morrer, cara! – Nervoso, Daniel gritava. Só sobraram eles dois: Daniel porque estava jogando com o fone no ouvido e só percebera o incêndio pelo cheiro da fumaça, e Seu Brito, de movimentos lentos por causa da artrose e acordara tarde demais.

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Sinhá dançou

Por: Rodrigo Santos

Ogã bateu, sinhá dançou. Desde o cativeiro da senzala até o estábulo social da favela, do primeiro estupro interracial até o cigarro pós-coito desta manhã, nada mudou. É de pobre, é de preto, mata bicho, mas madame diz amém de manhã e laroiê à noite, investe na homeopatia da hóstia e, na hora que a febre aumenta, recorre à amoxicilina do marafo e do charuto.

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Laços

Por: Rodrigo Santos

Eu estava lendo um artigo sobre bondage e submissão quando a janela do Messenger pipocou na tela. Era D. Janete, mãe de minha noiva.

– Raul, você sabe da Sônia?

– Não… Desde ontem. Ela não voltou para casa?

– Não Raul… E o celular dela não atende.

– Fique tranquila, D. Janete, estou indo praí.

Peguei o carro e fui para Icaraí, onde elas moravam. D. Janete sentada num sofá com o telefone na mão e com os olhos vermelhos, só conseguia repetir “mas onde foi que essa menina se meteu?”

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