Diálogo de Um

Por: Poema Eurístenes

O velho cruzou as pernas com aquela leveza própria dos membros fadigados pelo tempo. Olhava-o fixamente, pensativo. Resolveu falar alguma coisa, pois o silencio já era tão estridente que corroia seus ouvidos.

– Menino, a vida não é tão complicada quanto você tá dizendo. Deixe de lamentação e vá aproveitá-la.

– Odeio esse papo de velho que sempre acha que todas as coisas que jovem diz é bobagem. Eu também tenho meus problemas, oras. Custa aceitar isso? – Respondeu o menino que, se pudesse, daria um tapa no velho tapado.

– E esse é seu grande problema?

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Lenço esverdeado

Por: Poema Eurístenes

Os finais felizes que aprendi a reconhecer sempre envolviam casamentos, filhos, gente ficando rica, bandidos sendo presos, gorda ficando magra, feia ficando bonita e tantas outras coisas que gente como Manoel Carlos me fez pensar que são as únicas possibilidades de felicidade. A história que contarei agora não contém nada disso, mas para mim, ela é coisa que dá felicidade só de ser lida, imagine só vivida. E é por isso que a escolhi.

Sorriu. Respirou fundo e pegou sua pequena bolsa. Já estava um pouco atrasada e a viagem seria longa. Ônibus. Trem. Caminhada. Destino. Mas, fazia aquela rota bastante sorridente toda vez que era necessário. E sempre bem acompanhada, quando não era seu amado marido, sua irmã ou sua tia, amigos se ofereciam.

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Naquela estação

Por: Poema Eurístenes

Circulava pelas ruas como veleiro destinado a mar sem vento, ao qual nem mesmo remos restam. Frente ao pequeno entrave de metal frio que me separava da redoma de aço morno, toquei os bolsos, triste foi não sentir nada neles. Virei-me para a primeira criatura, que, com sorriso disfarçado em seriedade, sequer olhou em meus olhos. A segunda abordagem foi mais bem sucedida, consegui um “Não me toque!”. As pessoas estavam especialmente amáveis naquele fim de tarde. A soberba tomava conta de mim, afinal, a invisibilidade que os outros me faziam sentir colocava-me em lugar sagrado.

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Memória

Por: Poema Eurístenes

Olhava para o tênis, antes branco, agora de um cinza que nunca tinha percebido. Queria levantar, calçá-lo e sair correndo, mas não conseguia. Por mais que insistisse, meu corpo não atendia às ordens do pensamento. Só conseguia manter-me com o olhar fixo na tela do computador alternado a atenção com o tênis. Como menos de vinte palavras podiam ser tão poderosas? “Elis sumiu. Não consigo falar no celular dela. Sei que ontem ela foi te ver. Por favor, encontre-a!”

As palavras rodavam minha cabeça, queria pensar, mas não conseguia. Abri meu facebook como todas as manhãs, mas diferente de todas elas, uma mensagem curta continha um pedido e uma ordem que não sabia se poderia executar. Entretanto, precisava.

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