O papel

Por: José Luis Rocha

Uma derrapada na curva fez com que o carro dos agricultores voasse de encontro à árvore. As paralelas de borracha mostravam que a placa indicativa: “curva acentuada à esquerda” foi ignorada. Emerson, ou Minho como era conhecido, não foi poupado de ver a cena macabra, na qual seu pai e seu avô foram fatalmente vitimados.

Com soluço engasgado e lágrimas entre as sardas do rosto, Minho observou, com os olhos turvos, a mão direita de seu pai abrir para sempre, após pequenos espasmos da morte; de onde caiu um papel dobrado, que o menino pegou sem que ninguém notasse.

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Jogo Duro

Por:José Luis Rocha

Guerra, sangue, luto… Assim era a dura rotina nos morros do Anil e Santa Fé, vizinhos em Botafogo. O conflito ia além do tráfico de drogas: saía faísca se um morador de um lado encontrasse um do outro.

Abraçado à perseverança, professor Gil subia para treinar futebol nas duas favelas: no Santa Fé, orientava os meninos no campo do Rajadão; já no Anil, era com as meninas, lá na quadra do Beirute. Molecada agitada. Ossos do ofício.

O treinador congelou quando o seu coordenador avisou que inscrevera as equipes num torneio entre bairros, na Zona Norte. “Puta que o pariu! É a terceira guerra mundial!”, comparou.

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Candidato

Por: José Luis Rocha

Seis horas. Saulo pulou da cama, cambaleante de sono, estudara até às tantas. A cabeça cheia de números e problemas. Mesmo sabendo que precisava descansar na véspera, não conseguia se livrar das equações.

Ouviu dizer no rádio que fortes chuvas causaram engarrafamento na Avenida Brasil. – seis e quinze! – falou o locutor, como se mandasse Saulo se apressar. “Caramba, a prova começa às oito!”, pensou. Saiu às pressas, levando consigo uma fórmula: ”a hipotenusa ao quadrado é a soma dos quadrados dos catetos”.

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Sogra é sogra

Por: José Luís Silva Rocha

– Pô, Maluco… que gol que tu perdeu, hein! Parece até o Deivid. kkkkkk

– Fala sério, Marcelo. Tu mandô um passe todo esquisito e ainda queria que eu fizesse gol. E aquela trivela que eu mandei? Aí, sinistro né?

– Peraí, Doido. Tem uma parada pra eu resolver. Depois nós conversa. (enter)

– Até que enfim eu consegui falar com vc, seu safado! Vc tem que dar conta da minha filha!

– O que aconteceu, Dona Matilde?

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