Viver é um tempo precioso

Por: Jeferson Pedro

Dona Bela caminhava lentamente pela Rua do Bispo como faz cotidianamente. Com sua inseparável bolsinha de moedas e o tradicional sorriso no canto da boca, tinha a aura tranquila de quem já não tem pressa, pois sabe o que precisa para viver.

Paula vinha no sentido oposto, pedalando uma magrela apressada pela Rua Estrela. Mochila nas costas, batom vermelho na boca, fone com o som alto no ouvido, certa de que perderia metade da primeira aula. Tinha a expressão preocupada de não tem muito tempo a perder. Todos os dias refletia sobre o que seu avô lhe dizia sobre aproveitar a juventude. “O tempo passa rápido e não volta para que possa se arrepender do que não fez.”

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Por um segundo mais feliz

Por: Jeferson Pedro

Além de ter que abrir mão da sua liberdade, um homem na cadeia nunca dorme. Com medo. Se não dorme, também não sonha, pois a felicidade de um preso é muito cara e o inferno nosso de cada dia é aqui mesmo, bem perto dos olhos.

Durante os doze anos preso, viu coisas que deixaria arrepiado qualquer mortal. Companheiros de cela matavam, se enforcavam, se envenenavam e iam morrendo de todo o tipo de sorte e de azar também.

Mesmo com as regras da cadeia, ainda sentia pulsar no peito, o velho senso revolucionário. Revoltado com aquele horror tinha dias em que desejava comandar uma rebelião e explodir tudo! Ora, estamos falando de um homem que viveu uma das épocas mais difíceis no Brasil!

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Quem tem padrinho Calote, não morre pagão!

Por: Jeferson Pedro

Confesso que gostava quando a entrada do ônibus era por trás. No meu tempo de moleque, perdi as contas das vezes em que entrava pela traseira, encarava a trocadora, sentava na janela e quando o motorista abria a porta para os outros passageiros subirem, eu não vacilava. Descia os degraus debochando e comemorando mais um calote. Foram tantos que ganhei apelido e fiquei famoso na rua.

Não me esqueço do dia em que o motorista – de sacanagem – fechou a porta do ônibus na hora em que eu ia saindo. Fiquei com parte do braço para fora do ônibus até o outro ponto. Por sorte não machuquei o braço, pois os carros vinham pela Brasil, numa velocidade que parecia cena do filme “Corrida contra o destino”, do Quentin Tarantino.

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Laptop cor de rosa

Por: Jeferson Pedro

O santo de Michele nunca bateu com o da sogra, mas ela não esperava que ao ligar o computador, receberia uma mensagem da megera. Com o curso de Informática no morro, Dona Sônia não saia da internet.

Ela estava preocupada com o “desaparecimento” do filho desde a noite anterior, quando deixou a casa da namorada, e chamou Michele para uma conversa.

Surpresa com a notícia, a jovem ficou paralisada com o laptop cor de rosa aberto. Como numa investigação policial, Michele transformou-se em detetive e lembrou os passos de Pedro pelas ruas, vielas e becos da favela, na esperança de descobrir onde estaria o namorado.

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