65 INVERNOS

Por: Enrique Coimbra

Dezessete invernos quentes de decepções e um lobby de hotel barato. Para quem se limitava a se guiar pela rota das estrelas laranja nos céus da zona oeste, encontrar o pequeno prédio espremido entre Leblon e Copacabana foi complicado. Desceu no ponto errado, caminhou por quase vinte minutos e só parou quando a fachada sem brilho lhe mostrou que o tempo parou para aquela construção socada em concreto, cheirando forte a verniz.

Placas de vidro, carcomidas, separavam o hálito quente dos bueiros dos móveis entalhados à mão de não se sabia quem. R. se identificou como “amigo” quando inquisitado pelos olhos desprezíveis do recepcionista com ares de superioridade, analisando os moletons puídos e os anéis de prata enegrecidos do garoto que, agora, recebera a permissão para pegar o elevador, única modernidade competente além da TV de plasma pendurada ao lado da falsificação de Monet e do Windows 98 desatualizado.

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ESTADOS DE ESPÍRITO

Por: Enrique Coimbra

O término, para começar. Passou a repetir que não encontrava mais em Marco o homem gentil e apaixonado que conheceu há um par de anos. Riscava a imagem do namorado sem perdão, procurando as razões para tirar da casa dele a escova de dentes, o desodorante extra-seco e a caixa de absorventes sem hesitar.

Socou a parede e gritou até os pulmões explodirem que ela só precisava pedir uma prova de seu amor, que faria qualquer coisa para tê-la de volta. Cris recuou e achou melhor ficar só com as lágrimas de desespero. Marco cuspia ao berrar feito um animal selvagem, doente. Esquivou-se dos encontros ao peito dele, barreira de insultos proveniente de um amor que exclamava cultivar até nos ossos, mas que ela já não sentia. Tudo que sentia era medo.

Qualquer interação social trazia tempestades tropicais à “minilópole” Santa Cruz, conjurando chuvas, trovões e ventanias até que todos os olhos se virassem para eles, até que Marco se acalmasse e entendesse que o cara com qual ela conversara vendia perfumes do shopping.

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Morto-vivo

Por: Enrique Coimbra

A sensação de despertar sem dormir me tira do eixo. Morto-vivo embriagado por shots de vodka e rock ‘n’ roll, tão ousado e confiante na frente dos outros, tão apavorado quando de frente para o próprio reflexo na lataria imunda do ônibus que para com um sinal.

“Bom dia” resmungo torto para o motorista mal-humorado que se desdobra do corpo. Miro as poltronas. Vazio que se estende. Tudo tem um duplo. Tenho alguns quádruplos. Seguro pela roleta, aceno sem querer para o trocador. Não controlo minhas mãos, que caçam minha carteira pelos bolsos infinitos e pegajosos da jeans esfarelada.

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EPICENTRO

Por: Enrique Coimbra

Meus dedos congelam sobre o teclado que há pouco resmungava ecos secos por sobre minhas reclamações decepcionadas. Uma notificação apita a partir de um quadrado vermelho de bordas arredondadas e rezo para que seja Ele. O clique do mouse já é um pedido de desculpas epilético, introduzindo meus motivos por ter agido de forma tão estúpida no par de doze horas que antecederam aquele momento. Minha chance de me desculpar, depois de dezenas de ligações perdidas para uma voz metálica e carente de caixa-postal. Mulher solitária. Ímpar. Ele me puxou para um beijo só com os lábios, do jeito que eu mais gosto. Estamos na cama, Os Simpsons na TV. Estamos de roupa, um sobre o outro, lá pelas quatro da manhã. Antes das cinco, só estamos de cueca. Depois das cinco, estamos nus. Depois estamos brigando e eu já não sei mais o porquê.

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