Esperando a mamãe

Por: Diego da Silva

Miriam estava sentada com as pernas cruzadas sobre o assento da cadeira da cozinha cujos azulejos outrora foram brancos, mas agora se encontravam encardidos de sujeira e gordura. Tomava chocolate quente e comia uma grossa fatia de bolo de chocolate enquanto brincava com os cachinhos de seu cabelo, enrolando-os na ponta dos dedos.

Em cima da mesa de madeira havia um retrato, envelhecido, de uma mulher. Do outro lado estava sentado Arlindo, de pernas cruzadas. Usava um paletó puído e tinha meias sociais pretas e esgarçadas recobrindo as canelas manchadas e enrugadas. O ‘tique taque’ do relógio sobre a geladeira antiga marcava o tempo, que passava devagar.

Continuar a ler

Feliz por um triz

Por: Diego da Silva

Meia noite. O frio do cano de metal aliviava um pouco a quentura do suor que lhe descia pelas têmporas. Ele segurava fortemente o cabo daquela máquina de tirar vidas, alisando o gatilho com quem alisa um dente dolorido, quase que automaticamente. Sentado à escrivaninha, com a gordura em volta da cintura caindo em dobras por dentro da roupa, respirava ofegantemente, em meio a dor no maxilar.

A coragem que lhe inflava o peito pouco a pouco era transmitida até a ponta dos dedos. Esperava que visse sua vida passar nesses últimos momentos como um filme, mas não conseguia pensar em nada. Não nessa hora; havia decidido que aquele momento seria só seu. Pela primeira vez na vida. Respirou fundo e deixou que aquela sensação durasse por mais alguns segundos. Era quase… Uma paz.

Um barulho, alto e ensurdecedor. O sangue jorrou na parede pelo buraco do outro lado da cabeça, banhando as paredes de escarlate. O paletó branco também se encharcou rapidamente daquela cor.

Continuar a ler