A vida segue

Por: Carlos Guilherme

– Mil e um. Mil e dois. Mil e três. Vamos lá, reaja… – Dialoga solitário o jovem enquanto aplica vigorosa massagem cardíaca no corpo inerte estendido na Avenida Atlântica.

Expectadores observam o trabalho torcendo pela chegada de socorro médico.

Uma senhora chorosa acompanha a tudo em um banco do calçadão.

Uma menina senta-se a seu lado; ela está muito mais preocupada com o choro da anciã do que com o corpo inerte cercado de passantes em trajes de banho.

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Honrar as calças

Por: Carlos Guilherme

A vida no morro nos anos 60 não era fácil. Meu pai e meus irmãos trabalhavam nas obras da cidade enquanto nós suávamos a camisa em casa para sobreviver à pesada rotina do dia.

O barraco onde morávamos era de madeira de feira em chão de terra batida. Não havia luz elétrica e a água vinha do poço de algum vizinho. Mamãe estava sempre ocupada lavando roupa para as madames enquanto eu e minha irmã cuidávamos dos irmãos menores e da casa enquanto sonhávamos com as casas bonitas do Flamengo e de Copacabana.

Carne era item raro em nossos pratos e só acontecia em datas especiais ou quando trazíamos caça, fruto de aventuras na floresta da Pedra da Gávea, atividade freqüente que competia pelo tempo livre usado para corridas de carrinho de rolimã nas ladeiras.

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Para alegrar o coração

Por: Carlos Guilherme

Bruno não acreditava no que havia acabado de acontecer. Trabalhou exclusivamente para o projeto em troca de um pequeno auxílio financeiro e da participação no CD de música clássica que seria gravado e agora estava desempregado, antes da conclusão do projeto.

Será que realmente não há interesse pela música clássica?

Como viveria dali em diante?

Faz sinal para o 178 e entra, vê o motorista carrancudo, mas não dá atenção.

“Saldo insuficiente”…

Seu coração gela, suas mãos vão ao bolso da calça e lembra-se que usou os últimos trocados para a única refeição do dia.

– O senhor pode me dar um bonde até a Rocinha?

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