O troco

Por: Ana Paula Lisboa

Dia de sol e poucas nuvens, mas frio de lascar. Estava no Rio há três anos e depois de alguns empregos furrecas esse lhe pareceu o emprego dos sonhos. Ela só tinha que ficar sentada por 8 horas dando bilhetes e trocos.

Marinalva agora usava uma blusa de gola azul, tinha o privilegio de usar os cabelos cumpridos soltos e maquiagem. Era mesmo um sonho. Toda a belezura dela havia ajudado a conseguir trabalhar como bilheteira da Supervia na Estação Engenho Novo, mas ter terminado o ensino médio deu um empurrãozinho.

O dia de sol e poucas nuvens começou bem, depois do tal do bilhete único o trabalho diminuiu e ela podia até ouvir musica no celular com fone de ouvido escondido pelo cabelo pro chefe não ver. Marinalva era assediada por quase todos os homens que não estavam com pressa demais e conseguiam olhar pra ela através do vidro.

Pouquíssimos conseguiam alguma coisa. Ela só dava confiança pros nordestinos, a mãe havia avisado que carioca era uma raça que não prestava. Se fosse cearense ela se derretia.

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Encantos

Por: Ana Paula Lisboa

Brigo com ela logo cedo, para começar bem a manhã. Minha mãe é dessas mulheres chatas que questionam tudo e todos, perguntam todos os porquês do mundo, de todas as grafias dos porquês. A briga me faz correr e na saída a carteira fica em cima da mesa da cozinha, ao lado do copo de suco que enchi sem beber. No trocador me lembro dela e do suco. Tenho instantânea vontade de assassinar minha mãe. Os motoristas do 455 são sempre estranhos, me perseguem. Mesmo catando todas as moedinhas da bolsa vejo que nem chega perto da fortuna de R$ 2,75.

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Jéssica

Por: Ana Paula Lisboa

Ela acordou tarde, eu saí cedo. Foi uma noite difícil, regada a choro, cerveja e sexo, não nessa ordem. Dona Fatima tem um Facebook só pra dizer que é moderna, por isso quando ela entrou e me disse “oi, meu filho” eu tomei um susto. Ela demora um século pra digitar e quando finalmente conseguiu escrever me perguntando pela Jéssica e dizendo que não falava com ela desde ontem de manhã meu susto só aumentou. “Vocês brigaram, meu filho?”, demorou mais uns 10 minutos pra escrever. A gente tinha brigado sim, na madrugada, nem lembro por quê, só sei que houve cerveja, sexo e lagrimas, não nessa ordem também.

A Jéssica era forte, grande em todos os sentidos e fazia questão de parecer ainda maior. Usava unhas postiças enormes e um rabo de cavalo cumprido que não nasceu com ela, mas ai de quem falasse que era cabelo falso.

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