Só envelhece quem quer

Por: Cirlene Feliciano

Sábado 22:00 horas, Baixo Leblon

__vovô! O que o senhor pensa que está fazendo?

Caco mais uma vez entra na pista de skate para tentar realizar a manobra que idealizara em mais um de seus devaneios alucinógenos de adolescente suburbano em busca do elo perdido da fama, mas infelizmente, como sempre, a pista está ocupada.

Só que desta vez não é nenhum playboyzinho do asfalto que desliza o seu skate importado. É um velhinho de muito mais de sessenta anos, que desafiando a lei da gravidade e também a lei da terceira idade, que em sua crueldade sui generis da humanidade, diz: lugar de velho é no aconchego do lar, sentadinho na cadeirinha de balanço, com seu pijaminha listrado, jogando paciência.

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Churrasco e futebol

Por: Edilson Cândido Rezende

“Toda a reunião de família e a mesma merda” era o que pensava Samuel, a caminho da 35º reunião da família Fieldman que aconteceria no Porcão de Botafogo, rapaz que morava no bairro aonde ficava a churrascaria e torcia pelo bairro também, pois assim como dizia o seu avó “Botafogo, não conheço esse time, acho sim que é um belo bairro do Rio de janeiro” Bom mais era o seu time e sua convicção.

O carro parava na porta da churrascaria e nele estavam, seu pai, sua mãe e sua irmã, quando saíram do carro ele descobriu que sua família estava maior e seu avó infelizmente ainda estava vivo, pois é, Samuel não sabia se era bom seu avó estar vivo ainda mais porque o Botafogo tomou de 4 no domingo do time dele, o Fluminense.

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Viver é um tempo precioso

Por: Jeferson Pedro

Dona Bela caminhava lentamente pela Rua do Bispo como faz cotidianamente. Com sua inseparável bolsinha de moedas e o tradicional sorriso no canto da boca, tinha a aura tranquila de quem já não tem pressa, pois sabe o que precisa para viver.

Paula vinha no sentido oposto, pedalando uma magrela apressada pela Rua Estrela. Mochila nas costas, batom vermelho na boca, fone com o som alto no ouvido, certa de que perderia metade da primeira aula. Tinha a expressão preocupada de não tem muito tempo a perder. Todos os dias refletia sobre o que seu avô lhe dizia sobre aproveitar a juventude. “O tempo passa rápido e não volta para que possa se arrepender do que não fez.”

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“CATEDRAL DE BRASÍLIA”

Por: Felizpe Frutose

Felizpe da Silva começou a conversar com os desencarnados assim que a sua avó materna morreu. Ele tinha só oito anos. Agora com 12, já está se acostumando com o seu dom. No início achou estranho, assustador. Logo entendeu que as aparições constantes dos parentes e vizinhos eram inevitáveis.

O Brasil está em processo de mudança. É dois mil e vinte seis depois de Cristo. Orlando, Gisele e Felizpe saíram do Morro da Fé, Rio de Janeiro, e foram morar no centro-oeste do Brasil. Gisele, após se especializar em geriatria, passou num concurso público e agora trabalha em um grande hospital da capital federal.

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Arte: pratica e apreciação

Por: Vivian Farias

Eram duas mulheres. Duas mulheres bem diferentes que, ainda sem saber, tinham muito em comum. Uma estudante de filosofia, de 29 anos de idade; a outra, mestra em palhaçaria; de 58. Os corpos não “combinavam” com as respectivas idades. Mas não se conheceram a principio, corporalmente.

Apesar de estarem num espaço físico onde uma oficina de praticas circenses estava sendo ministrada aquele dia o encontro se daria pelas ideias trocadas, pois era uma aula de experimentação e  apreciação artística.

A mais nova estudava filosofia e era aluna por vocação. Havia quem não entendesse o porquê de se meter em tantas oficinas de arte, circo, consciência corporal.

– Ora, as pessoas ainda querem segregar as coisas. – pensava.

 Pra ela a filosofia era uma das formas mais antigas de arte, a arte das ideias e das palavras. E da arte ela queria experiência o quanto pudesse.

Nesse dias o esses corpos se encontraram num mesmo espaço físico e foi, após a apreciação artística onde a mulher mais velha foi a mediadora, que ambas foram caminhando juntas pra casa. Cinco quilômetros. Sim, descobriram ter em comum, além da paixão pela arte e caminhada o mesmo caminho pra casa. E foi nas, aproximadamente duas horas de calma caminhada, que se conheceram.

A mais velha: um corpo incrível, vivo, firme.

A mais nova: mente bem trabalhada, uma sede de conhecimento que a coloca sentada durante quase seis exaustivas horas diárias dedicadas a leitura e estudos intelectuais; mas seu corpo  não a acompanha.

Trocaram muitas ideias, experiências de vida. Falaram de todas as portas que abriram e de todas as outras que deixaram fechadas por escolha. Não, nenhuma das duas “já sabia o que havia ali” sem nem ao menos ter aberto a porta; mas ambas tinham em comum a certeza do caminho e do que levar da vida.

Na despedida a mais velha deixou um convite

– Venha conhecer minha escola de circo.

A mais nova foi.

Ambas foram crianças juntas por muito tempo e nessa relação de mestre e aprendiz nunca houve hierarquia ou troca por interesse. A mestra em corpo voltou a estudar. Quem diria que aquela pessoa tão sábia tão bem sucedida socialmente, não tinha completado seu ensino médio?

A estudante pode enfim, conhecer a si mesma através da arte de experimentar o ridículo através da palhaçaria, muito além da ideia que fazia das possibilidades do que era estar viva.

Pega ladrão

Por: Henrique Pakkatto

–        Segura a bolsa da velha, Maneco! – grita Jorge para o franzino moleque nascido sem pai e criado na rua.

–        Ladrão! Ladrão! – grita a velha, Eulália, na esquina da Ouvidor, segurando forte a alça puxada pelo “trombadinha”.

–        Ladrão! Pega! – gritam a menina que sai do McDonald’s indignada, o universitário, o camelô, o executivo e o guarda municipal que nunca passava a essa hora.

O plano era atacar os mais fracos e distraídos na “muvuca” do centro da cidade à hora do almoço. Melhor momento do dia para não encontrar heróis. Preocupados demais em voltar ao trabalho depois de encontrar um lugar pra comer ninguém atrapalhava. Os bandidinhos eram predadores soltos na savana de concreto. Mas, dessa vez, o assalto a bolsa listrada da coroa de cabelo azul “deu ruim”, atraiu atenção demais.

–        Fudeu, menor! Rala peito! – e os seis que o acompanhavam somem na multidão como se tivessem sido engolidos pela cidade.

Muita gente nervosa falando alto e avançando em direção a Maneco. Vai ser porrada de novo, zoação, quiçá FEBEM. Esculacho, tapa na cara, um monte de esporro e palavrão esquisito:“punguista!”, “meliante”, “infrator”.

Assustado, o moleque de doze anos, com mãe viciada em crack e duas passagens pelos abrigos da prefeitura do Rio, converte o “puxão” dado à bolsa num abraço. Já viu alguém que se pusesse na posição fetal de pé? Com o polegar na boca e os olhos cheios de lágrimas, preparando-se para ser imolado, o rosto do menino se transforma. O olhar de desamparo toma o lugar da máscara feroz que assustava os incautos transeuntes dessa esquina da Avenida Rio Branco.

A multidão não quer saber de nada não. Quer cobrar de Maneco a dívida da quadrilha de meninos liderada por Jorge, quatorze anos, que atua na área que vai dali até o Largo de São Francisco.

–        Vai chorar agora, né, seu bostinha?

–        Esse fingimento aí não te salva não.

Mas Eulália, encontra o olhar do garoto e vê que o medo havia lavado a maquiagem de ódio e abandono. O guarda municipal balança o cacetete. Ela se ajoelha, abraça Maneco e o comprime fortemente contra as tetas murchas. A multidão ainda grita. Ela sussurra “calma” em seu ouvido. O camelô quer ver sangue de criança espalhado na calçada. Ela pensa nos filhos que deixou abandonados no Pará há trinta anos. O executivo quer separá-la do menino. “Você podia ser meu neto”, diz, emocionada, puxando-o pra longe dos linchadores.

Maneco vê nos olhos da mulher uma dor parecida com a sua. Sente novamente um doce carinho de mãe. Teria ele encontrado a redenção naquela tarde? Seria adotado pela madame carente? Iam acabar a noite ao relento, a lata de benzina e as agressões?

–        Assim ele vai escapar, minha senhora. – diz a menina do milk shake.

Ele sabia que não ia ser ali nem hoje.

–        Desculpa, vovó! E obrigado! – sussurra Maneco desvencilhando-se do terno abraço pra sumir com a carteira da idosa na mão.

A Bel

Por: Henrique Pakkatto

Você pode intuir o que é bom e belo, pode intuir o que é perfeito e harmonioso, o que é justo ou não. Só não poderá fazê-lo sob a influência do amor. O amor, caro amigo, nubla o juízo e a temperança, ignora o senso comum e nega a recompensa aos que realmente a merecem.

Inveja? É inofensiva e lisonjeira, coisa para disputas menores. A disputa pelo amor, essa subverte a lógica das alianças naturais e pode inverter a polaridade das intenções.

Sempre tive orgulho das minhas realizações. Fui o melhor aluno da classe, o atacante goleador, aquele que aprendeu inglês antes dos quatorze, que ganhou bolsa para ir à Europa e que sabia tocar piano.

Pergunte-me onde estava ela?

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