Pega ladrão

Por: Henrique Pakkatto

–        Segura a bolsa da velha, Maneco! – grita Jorge para o franzino moleque nascido sem pai e criado na rua.

–        Ladrão! Ladrão! – grita a velha, Eulália, na esquina da Ouvidor, segurando forte a alça puxada pelo “trombadinha”.

–        Ladrão! Pega! – gritam a menina que sai do McDonald’s indignada, o universitário, o camelô, o executivo e o guarda municipal que nunca passava a essa hora.

O plano era atacar os mais fracos e distraídos na “muvuca” do centro da cidade à hora do almoço. Melhor momento do dia para não encontrar heróis. Preocupados demais em voltar ao trabalho depois de encontrar um lugar pra comer ninguém atrapalhava. Os bandidinhos eram predadores soltos na savana de concreto. Mas, dessa vez, o assalto a bolsa listrada da coroa de cabelo azul “deu ruim”, atraiu atenção demais.

–        Fudeu, menor! Rala peito! – e os seis que o acompanhavam somem na multidão como se tivessem sido engolidos pela cidade.

Muita gente nervosa falando alto e avançando em direção a Maneco. Vai ser porrada de novo, zoação, quiçá FEBEM. Esculacho, tapa na cara, um monte de esporro e palavrão esquisito:“punguista!”, “meliante”, “infrator”.

Assustado, o moleque de doze anos, com mãe viciada em crack e duas passagens pelos abrigos da prefeitura do Rio, converte o “puxão” dado à bolsa num abraço. Já viu alguém que se pusesse na posição fetal de pé? Com o polegar na boca e os olhos cheios de lágrimas, preparando-se para ser imolado, o rosto do menino se transforma. O olhar de desamparo toma o lugar da máscara feroz que assustava os incautos transeuntes dessa esquina da Avenida Rio Branco.

A multidão não quer saber de nada não. Quer cobrar de Maneco a dívida da quadrilha de meninos liderada por Jorge, quatorze anos, que atua na área que vai dali até o Largo de São Francisco.

–        Vai chorar agora, né, seu bostinha?

–        Esse fingimento aí não te salva não.

Mas Eulália, encontra o olhar do garoto e vê que o medo havia lavado a maquiagem de ódio e abandono. O guarda municipal balança o cacetete. Ela se ajoelha, abraça Maneco e o comprime fortemente contra as tetas murchas. A multidão ainda grita. Ela sussurra “calma” em seu ouvido. O camelô quer ver sangue de criança espalhado na calçada. Ela pensa nos filhos que deixou abandonados no Pará há trinta anos. O executivo quer separá-la do menino. “Você podia ser meu neto”, diz, emocionada, puxando-o pra longe dos linchadores.

Maneco vê nos olhos da mulher uma dor parecida com a sua. Sente novamente um doce carinho de mãe. Teria ele encontrado a redenção naquela tarde? Seria adotado pela madame carente? Iam acabar a noite ao relento, a lata de benzina e as agressões?

–        Assim ele vai escapar, minha senhora. – diz a menina do milk shake.

Ele sabia que não ia ser ali nem hoje.

–        Desculpa, vovó! E obrigado! – sussurra Maneco desvencilhando-se do terno abraço pra sumir com a carteira da idosa na mão.

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Medo da chuva

Por: Henrique Pakkatto

Juliana tinha agora oito anos. Perguntava a mãe, Dona Ester, o significado do mundo, o nome das estrelas e das flores, fingia ser princesa e sorria lindamente enquanto corria com as outras crianças no pátio do batalhão de infantaria.

Mas, toda vez que chovia, Juliana chorava em desespero e não adormecia à noite. Chamava pelo pai, um dos muitos desaparecidos no desabamento do Morro do Bumba, em Niterói. Seu choro soava forte pelos corredores do abrigo improvisado que virara casa para mais de setecentas pessoas arrancadas de seus lares. Não podiam reclamar da menina ou repreendê-la. Todos ali também choravam, ainda que em silêncio, como Ester.

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Quem Espera Sempre Alcança

Por: Monique Vieira

A lembrança que tenho de Inês Alice é, moradora da Rua 26 em Parada de Lucas, como gostava de ser chamada “uma mulher cabra macho”. Fazendo alusão a naturalidade nortista. Aos 23 anos, em 1955, casou com, um renomado sargento da Marinha, Aluísio. Um ano após o casório tiveram o primogênito de três irmãos, Aílton Felipe e num intervalo de quatro anos, cada um, nasceu Arlete Beatriz e Álvaro Márcio.

Nessa época, Inês Alice perceberá que seu marido tinha algum problema de ordem psíquica. – Quem em sã consciência, sai de casa apenas de cueca para ir ao bar beber? Comentava. O alcoolismo, de Aluísio, era outro problema que enfrentavam.

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Emergências

Por: Jéssica de Oliveira

Acordou com o choro da pequena Amanda e com os praguejos de Evelyn. Embora preocupado com a saúde da filha, o cansaço pelas noites que passara insone nos corredores do Hospital Geral de Bonsucesso fazia seus olhos pesarem.

Amanda chorava com o arder da febre. A receita dos remédios indicados pelo médico estava sobre a mesa. Evelyn a olhava sem nada dizer. Victor fazia o mesmo. Ambos sabiam que não havia dinheiro para os remédios. Mal havia dinheiro para o leite Ninho da mamadeira.

Fizeram silêncio, deixando apenas que os gemidos da filha ecoassem pelo pequeno quarto-sala em que viviam desde que a barriga da moça apareceu aos 17. Evelyn assustou-se quando Victor levantou-se da cama de repente, calçou o par de havaianas velhas e destrancou o cadeado que prendia a corrente da porta. O seguiu com o olhar em silêncio, sem fazer nenhuma pergunta. Ele saiu.

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O prólogo, a história e a esquina da poesia

Por: Wellington França

PROLOGO

Metralhadoras tocando o hino da morte marcado pelo tambor das granadas tornam-se eco do passado. Manos, manas e menores, bandoleiros e soldados pobres tombados nas vielas atapetada de plástico vermelho com restos de pó garimpados por crianças. Pétalas de cinza pousando sobre mesas de bar, lembrando corpos de vítimas queimados pela crueldade humana mais sombria… Cedem lugar aos soldados cidadãos querendo ensinar artes e lutas para crianças. Jovens ensinando pais a materializar projetos. Trabalhadores sem trincheiras tricotando ideias reaprendem de igual para igual com intelectuais novos fazeres literários.

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Feliz por um triz

Por: Diego da Silva

Meia noite. O frio do cano de metal aliviava um pouco a quentura do suor que lhe descia pelas têmporas. Ele segurava fortemente o cabo daquela máquina de tirar vidas, alisando o gatilho com quem alisa um dente dolorido, quase que automaticamente. Sentado à escrivaninha, com a gordura em volta da cintura caindo em dobras por dentro da roupa, respirava ofegantemente, em meio a dor no maxilar.

A coragem que lhe inflava o peito pouco a pouco era transmitida até a ponta dos dedos. Esperava que visse sua vida passar nesses últimos momentos como um filme, mas não conseguia pensar em nada. Não nessa hora; havia decidido que aquele momento seria só seu. Pela primeira vez na vida. Respirou fundo e deixou que aquela sensação durasse por mais alguns segundos. Era quase… Uma paz.

Um barulho, alto e ensurdecedor. O sangue jorrou na parede pelo buraco do outro lado da cabeça, banhando as paredes de escarlate. O paletó branco também se encharcou rapidamente daquela cor.

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Final Feliz

Por: Márcio Januário

ALEX – MAIOR TEMPÃO QUE NÃO VARAVA O VIDIGAL DE MOTO SEM CAPACETE. EMPINANDO A MOTO.

VONTADE DE SAIR SAINDO PRO CANTÃO PRA FUMAR UM COM OS AMIGOS, GERAL ZOANDO: CARLINHOS, CLAUDIO, ARISTÓBOLO, DECA, RATO E O ORELHA QUE SÓ SABIA FICAR NA ABA.

MAS AGORA TUDO MUDOU. O DECA VIROU BANDIDO E O ORELHA ENTROU PRA IGREJA. HOJE MESMO O RATO, JÁ LEVOU UMA DURA. REVISTAM MOCHILA DE CRIANÇA, ATÉ AS COROA, ELES REVISTAM. TEM UM TAL DE SARGENTO ROBOCOP, QUE É NEURÓTICO,  LEVA OS CARA PRO CANTO MANDA ABAIXAR AS CALÇA E TUDO. ESCULACHA LEGAL.

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