XARPI

Por: Jessé

JOU-SU. CIALIPO!

RE-CÓ. RE-CÓ. SARANGU!

Escutei essas palavras em meio a barulhos de cães ferozes, tiros e telhados quebrando, levantei da cadeira, corri para cozinha, peguei minha faca de churrasco e fui ver o que acontecia. Abri a porta da sala, um rapaz que podia ser meu neto correu de cabeça baixa pra dentro da minha sala sussurrando em voz baixa.

– Socorro tio, eles tão lá fora querendo me matar!

Assustado, tentei manter a calma e mostrar quem mandava ali.

– Você é ladrão?

– Não tio, sou trabalhador!

-Essa hora da madruga você usou craque?

-Não tio, eles tão atrás de mim porque eu tava botando uns nomes ali na esquina.

– O que é SARANGU e que coisa é essa de colocar nomes?

Antes da resposta, o interfone tocou.

-Alo quem é?

– É da policia senhor, queremos saber se está tudo bem aí na sua casa?

– Pelo amor de Deus tio, não me entregue pros cana!

Olhei para aquele jovem, como um rato acuado e respondi que sim, estava tudo bem, só tinha escutado uns tiros na rua nada mais, abri o portão, perguntei o que estava acontecendo, o policial me respondeu.

-Os seguranças da rua viram um pichador pulando uns muros e chamou agente pra dar apoio aqui da área.

-Ok, senhores vou entrar, qualquer coisa aviso aos senhores!

Abri a porta, e lá estava ele com as mãos sujas de tinta preta mais sangue adquiridos na fuga.

-Você é um pichador? Perguntei depois de ouvir o policial dizer que não era nada de mais.

– Pô tio, foi mal, não queria incomodar o senhor!

-Qual é o seu nome rapaz?

-Meu nome é Paulo, mas pode me chamar de Paulinho.

-Paulo, vá ao banheiro se limpe enquanto pego minha maleta de primeiros socorros pra você.

– O senhor é médico?

-Não, trabalho escrevendo!

-Eu também escrevo tio, a diferença que uso muros de pedra, prédios, estátuas, tudo que possa aparecer no jornal ou em lugares onde passa ônibus.

-Percebi que você trabalha escrevendo, os policias estão lá fora querendo dar seu pagamento!

-Pô tio, não sabe brincar não brinca.

-Paulo, a vida não é um jogo que você tem várias chances.

-To ligado tio!

– Sou jornalista, tenho vários livros publicados, escrevo pra revistas e jornais que são lidos por muita gente.

-Eu também escrevo pra muita gente tio, sou do bonde de pichadores mais conhecido no Rio de Janeiro, tenho vários fãs que ficam olhando pro alto só pra ver meus nomes pela janela do ônibus lá em cima dos prédios, sou respeitadão no meio do Xarpi.

-O que é Xarpi Paulo?

-Xar-pi é pichar de trás pra frente tio, tipo: Ré-co. Cia-li-po é como dizer corre policia.

-E sarangu é o que?

-Sarangu na verdade é sa-ran-gu-se, segurança, mas fica ruim falar, aí cortamos o “se” e ficou só sarangu.

-E quem gritou pra você essas palavras?

-Foi meu amigo, ele passou batidão como morador, os canas nem parô ele.

-Paulo já amanheceu, vá pra casa e pensa nos conselhos que te dei.

No outro dia publiquei a história do Paulo no jornal, aproveitei que estava sem inspiração e atendi o seu pedido de aparecer na mídia.

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