Viver é um tempo precioso

Por: Jeferson Pedro

Dona Bela caminhava lentamente pela Rua do Bispo como faz cotidianamente. Com sua inseparável bolsinha de moedas e o tradicional sorriso no canto da boca, tinha a aura tranquila de quem já não tem pressa, pois sabe o que precisa para viver.

Paula vinha no sentido oposto, pedalando uma magrela apressada pela Rua Estrela. Mochila nas costas, batom vermelho na boca, fone com o som alto no ouvido, certa de que perderia metade da primeira aula. Tinha a expressão preocupada de não tem muito tempo a perder. Todos os dias refletia sobre o que seu avô lhe dizia sobre aproveitar a juventude. “O tempo passa rápido e não volta para que possa se arrepender do que não fez.”

Com o sinal fechado na Paulo de Frontin, as duas pararam na calçada para esperar o sinal abrir. Observavam de longe uma a outra. O sinal abriu, elas saíram da calçada para atravessarem e no instante de um segundo, veio um carro a 200 km/h mandando pelos ares, tudo o que estava na frente. Duas viaturas da Polícia Militar perseguiam o veiculo com a sirene ensurdecedora ligada.

Foi como se alguém tivesse empurrado Bela e Paula do alto de um penhasco, num tempo muito rápido. Não deu para ouvir muita coisa. Nem de correr, nem de pensar. Foi simples como o ato de abrir e fechar os olhos e Paula estava desmaiada no chão, com cortes nos dois joelhos, no cotovelo, no queixo e muito sangue escorrendo pela testa. Bela, do outro lado procurava os óculos no chão. Apesar do impacto, ela conseguiu segurar a bolsa de moedas com a mão direita contra o peito e acompanhou todos os transeuntes e curiosos que se aproximavam para prestar socorro.

Receberam os primeiros socorros ainda na rua. No hospital, ficaram no mesmo leito. Depois de três horas de sono, Bela abriu os olhos e notou o quanto Paula estava machucada. Paula também acordou. Tentando se levantar, perguntou a Bela:

– A senhora está bem?

– Não gosto que me chamem de senhora! Respondeu.

– Mas a senhora é uma senhora, queria que eu a chamasse de quê?

– De Bela. Ora essa!

Paula riu meio sem graça, pediu desculpas pelo ocorrido e lamentou estar pedalando tão apressada.

– Hum, você entende de Física não é mesmo? Que bonito! Debochou Bela.

– Não entendo e não gosto, mas sei que o impacto teria sido menor se eu não estivesse correndo tanto.

– Verdade, eu mesmo não me machuquei tanto, pois vinha andando devagar.

– A senhora está certa. A partir de hoje, só vou andar bem devagar.

– Minha filha, quando eu estava na escola, devia ter a sua idade. Li uma frase que mudou minha vida. Era de Nietzsche e dizia assim: “tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo”. Você não foi privada de nada. Tem mil coisas para ver, viver, aprender. Ainda tem muito chão para cair e se levantar.

As duas riram e neste instante os familiares de Paula entraram no quarto. Seu Gumercindo, o sábio avô de Paula, piscou o olho direito para Bela, que imediatamente riu demonstrando interesse por aquele coroa garboso e bem apessoado. Já podia imaginar um clima de romance entre os dois passeando de bicicleta.

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