VIDAS AMPUTADAS

Por: Wellington França

Pô D. Zilda! Desencana! Deixa curtir minha música em paz!

– Menina! Como foi que cê se queimou desse jeito?

Juliana continua com o fone no ouvido sem interesse de responder.

A avó insiste na conversa. A neta ignora:

– Precisa cuidá da ferida! E como foi que se queimou?

– Inferno! O que foi agora?

– Como que foi que se queimou?

– Que chato! Toda hora a mesma pergunta! Foi no ferro de passar…

– Há! Conta outra vai! Essa num valeu! Como é que cê se queima num ferro de passá se num faz nada na casa! A pia tá cheia, se dexá apodrece. Tem loça da janta de onte! Num varre uma casa. Um montão de roupa prá passá…

Juliana mergulha em seus pensamentos. Tem vontade de sumir. Escuta de longe a mistura de vozes dos outros da sala na escola. Mira-se destacada ao fundo. As palavras desferidas pelo professor com olhares de espanto e repulsa da turma sobre seus peitos…

– E intão? Como foi que se queimou – Insiste D. Zilda com sarcasmo.

– Tava tentando desamassar a folha da redação…

Juliana reluta falar sobre a redação. Trabalho valendo nota tendo como tema o dia das mães. Havia jogado fora num ímpeto de raiva quando sua mãe lhe pedira para ficar acompanhando a avó convalescente da cirurgia. Sobre o que tinha escrito? Não lembrava.

– E como tá na escola? Vê se agora passa de ano! Três vezes repetindo a quinta série. Num é brinquedo não!

– Hã, hã!

O fone no ouvido ligado ao celular não impedia de escutar a voz da anciã. Não tinha nada para escutar. Tentava o rádio que só chiava. Na mente as vozes dos pirralhos no pátio no intervalo da merenda ou na saída:

“Juju girafa peitão! Juju girafa peitão! Juju girafa peitão!”

Blusão masculino esconde o busto gigante. (explosão)

Estoura um transformador. Cai um temporal.

Juliana treme. Aterrorizada. Celular em punho tenta iluminar a sala. Não lembra que no aparelho tem lanterna. D. Zilda fala da vela numa caixa dentro do armário da cozinha. De dentro da caixa, outra menor com um saco de mercado amarrando um cotoco de vela. Pisca-pisca do celular voltado para a porta, em nada ajuda D. Zilda na procura do fósforo. Retornando à sala, a anciã acende a vela no fundo de um copo de geleia emborcado sobre a pequena mesa de centro. O esforço causa muita dor.

Silencio entre as duas sentadas juntas na beira do sofá cortado pela dúvida adolescente:

– como é?

– como é o que menina?

– ter o peito cortado!

Pequeno filete de lágrima escorre entre as marcas do rosto da velha guerreira. Ju finge não ver. O fígado atingido pela quimioterapia, nem a amputação do seio se comparam à perda do único homem que amou por toda sua vida.

D. Zilda desfila os grandes feitos de Seu Tião, mestre de obras, dado por desaparecido em Bagdá, na ocasião da guerra do mundo contra o Iraque. Juliana adormece. A vela se apaga. D. Zildenira de Jesus falece.

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