Só envelhece quem quer

Por: Cirlene Feliciano

Sábado 22:00 horas, Baixo Leblon

__vovô! O que o senhor pensa que está fazendo?

Caco mais uma vez entra na pista de skate para tentar realizar a manobra que idealizara em mais um de seus devaneios alucinógenos de adolescente suburbano em busca do elo perdido da fama, mas infelizmente, como sempre, a pista está ocupada.

Só que desta vez não é nenhum playboyzinho do asfalto que desliza o seu skate importado. É um velhinho de muito mais de sessenta anos, que desafiando a lei da gravidade e também a lei da terceira idade, que em sua crueldade sui generis da humanidade, diz: lugar de velho é no aconchego do lar, sentadinho na cadeirinha de balanço, com seu pijaminha listrado, jogando paciência.

Ah! Mas desta vez a lei da terceira idade, teve que se fuder. O velho Ícaro resolveu sair do marasmo da sua vidinha insossa de aposentado, para deixar eclodir a energia que lateja em sua alma fazendo o suor outrora petrificado como granizo, gotejar em sua têmpora, como a larva incandescente de um vulcão. Isso! Vulcão. É a palavra certa pra denomina o velho Ícaro.

__Vovô, o senhor não acha que está muito velho pra ficar pagando mico aí em cima deste skate?

E o velho Ícaro, para a manobra que iniciara, desce do skate em um rodopio de profissional, fazendo o jovem Caco enrubescer e se sentir pagando um gorilão pro coroa.

__ Pra começar, meu amigo, velho é o caralho. Tenho idade pra ser teu avô, mas não sou. Se você conseguisse fazer a décima parte das manobras que eu faço, já teria conseguido curtir o barato que é ter 67 anos de muita sacanagem e manobras radicais.

E Caco se entristece, pela constatação de um fato que um idoso o obriga a fazer. Ele para fixando o olhar no coroinha enquanto sua cuca fervilha. “Caraca, o velhote é irado. Eu não sabia que eu era assim tão careta. Tô pior que meu pai.”

__ Ae, véio! Foi mal! Vamos começar tudo de novo. Sou o caco, moro ali no morro, más não sou vagabundo não, tá?

__ Meu rapaz! Tem muita coisa que você tem que aprender ainda. Sou o Ícaro, aqui do asfalto, mas tô sempre lá no morro, curtindo as rodas de samba e um funk de vez em quando. E o encontro entre duas gerações de classe social tão diferente foi selado de uma forma um tanto quanto original. Um mini campeonato de skate entre um velhinho de 17 anos de idade e um jovem de 67 bem resolvidos e vividos anos.

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