– Pula, tio!

Por: Rodrigo Santos

A fumaça já lambia o teto, e as línguas de fogo surgiam ameaçadoras, pelo poço do elevador. Agarrado no janelão, Seu Brito tremia. Olhava para baixo, só via as sirenes e a multidão aflita e excitada pela possibilidade da tragédia.

“Fiquem calmos, nós vamos buscá-los! NÃO PULEM! Não é seguro!” – repetia a voz no megafone. O prédio todo estalava e gemia, junto com Seu Brito.

– Pula, tio! A gente vai morrer, cara! – Nervoso, Daniel gritava. Só sobraram eles dois: Daniel porque estava jogando com o fone no ouvido e só percebera o incêndio pelo cheiro da fumaça, e Seu Brito, de movimentos lentos por causa da artrose e acordara tarde demais.

– Ca-calma, garoto. Os bombeiros irão nos salvar…

– Vão nada, tio. Não vai dar tempo de eles subirem aqui. Tem que fechar os olhos e pular de bicho!

– Mas o pessoal do Joelma morreu assim… Eu lembro das imagens…

– Que Joelma? Que filme é esse? Vai por mim, tio, pula aí que o Shia Lebouf pulou no Transformers e não morreu!

“O socorro está chegando, não pulem! Repito: NÃO PULEM!”

Seu Brito foi escorregando com as mãos na esquadria da janela até sentar-se no chão.

– Você mora com quem, menino? – perguntou, tentando acalmar a si próprio e a Daniel, que não parava quieto.

– Com minha mãe.

– E cadê ela? Ela ainda está lá?

– Não, saiu com o namorado. Eu vou pular, tio, sai da frente.

– Não, moleque. Sossega aí. Os bombeiros estão chegando.

– Sossega o cacete! A gente vai morrer queimado aqui, tio. Vai sobrar nada, vão ter que reconhecer os corpos pelo DNA.

– Mas…

– Eu vi no CSI. Nego cata teus pedaços com uma colher, coloca num vidrinho, gira tudo numa parada lá e joga no computador. Aí na tela aparece tudo de você, até a tua foto.

– Mas eu não quero morrer queimado!

– Então PULA, tio!

– Não, a gente não vai morrer, fica frio.

– Tio, na boa? Você já tá no lucro, né? Viveu pra caramba. Eu é que não posso morrer. E ainda sou virgem! Caraca, vou pular, tio, sai daí! – pirou.

– Moro aqui há trinta anos. Não conheço ninguém, só saio para receber a pensão do Exército e fazer compras. Não posso morrer agora. Eu tenho um filho… Lembro dele assim, igual a você. Preciso voltar a falar com ele, preciso que ele me perdoe, preciso ver minha neta…

– Precisa é de pular, velho! Sai que eu vou pular! – e Daniel correu para a janela, pisou no ombro de Seu Brito, puxou o ar e…

Caiu no chão com uma crise de tosse por causa da fumaça, que já descia até a altura das campainhas. Tossia como se tivesse alguma coisa entalada, cara vermelha, olhos esbugalhados.

Quando Seu Brito levantou para ajudar, uma explosão vinda do elevador fez o ar se deslocar com tanta força que ele perdeu o equilíbrio e caiu. Para trás. Rumo ao solo.

Daniel acordou do desmaio já na ambulância. Capitão Brito foi enterrado com a mesma farda que usara enquanto torturava subversivos nos anos de chumbo. Arrancava unhas, quebrava costelas e convicções com bravura. Só nunca queimara ninguém, porque tinha pavor de fogo.

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