Paixão é Futebol

Por: Romulo Narducci

O futebol está no sangue e na alma de cada brasileiro. No bairro Califórnia, em São Gonçalo, esse conceito não era diferente para os jovens amigos Edu, Leo, Zé Meleca e Lico. Cresceram jogando bola na rua de terra batida em que moravam.

As traves eram improvisadas com pedras formando o chamado gol de praia, a bola era deixada no sol para ter mais consistência e as regras eram básicas como não botar a mão na bola e não cometer entrada dura. No lado oposto, o cuidado era redobrado para que a bola não caísse no quintal da velha casa de muro alto. O lugar era soturno e tinha uma vegetação que impunha medo às crianças do bairro.

Num fim de tarde, os quatro amigos se encontraram na rua. Zerinho-um! Zé Meleca e Leo para um lado e Edu e Lico eram o outro time. Jogo duro. Lico marcou primeiro numa tabela com Edu. Zé Meleca empatou. O jogo ficou mais disputado, num lançamento de Edu para Lico, Zé Meleca cabeceou a bola que tomou o rumo temido. Os quatro ficaram observando a trajetória da bola que bateu no topo do muro e caiu no quintal da velha casa.

– Me dá pé-pé que eu pulo o muro! Disse Lico.

– Ta maluco, reclamou Edu – dizem que uma bruxa mora aí!

– Ah, pára! Eu vou com você – falou Leo.

– Eu vô gritá perrega! Disse Zé Meleca aos risos.

– Se gritar te dou uma moca! Ameaçou Lico, que subiu o muro como um gato, em seguida Leo fez o mesmo com mais dificuldade.

Passado um tempo sem o retorno dos amigos, Zé Meleca já estava impaciente.

– O que houve? Vô vê!

– Tá maluco Zé?

– Deixa de sê cagão, Edu! Me dá pé-pé. E o garoto pulou o muro. O medroso do Edu ficou sozinho na rua.

Passada uma hora, Edu já estava com uma lágrima na garganta. Lembrou-se das histórias que ouvia sobre a velha bruxa daquela casa. O pânico o fez entrar em sua casa gritando pela mãe. Antes mesmo que contasse o ocorrido sua mãe o informou para que fosse até a casa da Dona Maria, pois Lico havia ligado de lá o convidando para se juntar aos outros.

– Ela é uma bruxa, mãe!

– Seu bobo! Nem parece que tem 13 anos! Vai logo.

Trêmulo, Edu cruzou o portão entreaberto da velha casa. O mato estava alto. Impossível achar a bola. Da porta da sala já se ouvia as gargalhadas dos amigos.

– Entre, Edu. Falou doce a senhora.

Na cozinha, todos faziam festa com a idosa em volta da mesa onde havia um lindo bolo de fubá.

– Sente-se e coma um pedaço, Edu. Disse ela.

Edu temeroso juntou-se aos amigos. Aos poucos, com as histórias da idosa, já ria sem parar. Viu como havia sido tolo. Com o tempo, seus amigos foram se despedindo, ele estava encantado com a velha. Conversaram animados sobre tudo. Leo foi o último a se despedir com a bola embaixo do braço.

Três dias se passaram, Edu não voltou para casa. A polícia foi até o local e teve a informação de Dona Maria de que o garoto havia saído tarde de lá. Até hoje Edu não foi encontrado e a velha senhora, continua reclusa em sua casa sombria que ainda leva terror ao imaginário das crianças.

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