Página virada

Por: Yolanda Soares de Souza

Era noite fria, rua deserta, o vento batia forte no rosto de Marta. Ela só tinha dez anos! Era tão magrinha que chegava a ser desnutrida. As casas todas com portas e janelas fechadas. Árvores balançavam e faziam sombras, dando a impressão de que havia mais alguém. O uivar do vento era forte e dava medo.

Estava totalmente vencida pelo cansaço, pelo frio e pela fome! Encostou-se a um muro, não conseguia respirar e já se dava por vencida… – suspirou e apagou – Marta não sabia o que tinha acontecido, nem onde estava, e não sentia mais frio! Pelo contrário, estava bem aquecida, e sentia um agradável cheiro… Que já conhecia de outros tempos. Até àquele momento ela só tinha sentido o quentinho, o aroma maravilhoso, porém, ainda não tinha aberto os olhos, isso foi acontecendo devagar…

Estava com medo do que para ela, poderia ser um sonho, ou! – levou um susto e deu um pulo levantando – será que morri? – falou quase que num murmúrio, abrindo os olhos como que num relâmpago! De repente ouviu uma voz que soou como música em seus ouvidos – calma menina, você não está morta – não? – perguntou – então estou sonhando? – Não – respondeu–lhe a voz– Você está bem viva, e acordada! A menina não acreditava, era tudo irreal. – Venha, tem um caldo quentinho, você deve estar com fome – ela balançou a cabeça que sim – e ajudou Marta a se levantar.

Quando saiu daquelas cobertas quentinhas e perfumadas, se deu conta de que não estava com as roupas velhas e sujas, estas eram roupas de dormir, novas, bonitas e cheirosas… A mulher lhe deu a mão e a levou para a sala de jantar… Que por sinal era enorme! Sentou-se a mesa, veio outra mulher bem mais simples, mas pelo uniforme dava para saber a sua condição na casa.

E lhe serviu a sopa, que comeu com pão. Depois que a menina terminou de comer, a fina e elegante mulher começou a falar – você estava caída no muro da minha casa, Maria, a moça que lhe serviu, me ajudou a trazê-la para dentro… Ela é a única pessoa que tenho na vida. – Meu nome é Manuela, moro só: perdi meu marido, minha filha e minha neta em um acidente de carro, faz dois meses. Já estava desistindo de tudo…

Saí para pegar o carro, pois ia dar um fim a minha vida, neste exato momento vi um movimento do lado de fora, Pensei que fosse um cachorrinho ou um gatinho, cheguei perto e me assustei quando vi que era uma menina… Sua semelhança com minha neta é muito grande, fiquei nervosa, queria que vivesse! Senti como se ela tivesse voltado! Não vou lhe prender aqui, mas você me salvou, quero muito lhe ajudar! – Mas conte-me como veio parar aqui? Conheço todos os moradores e sei que não é daqui.

– Minha mãe morreu, eu vivia com meu pai e minha madrasta, ela me maltratava muito, falava para ele, mas não acreditava em mim! E aí morreu… Fugi de lá, e desde esse dia, estou andando há muito tempo, quanto, não sei!

Algumas vezes ganhei comida, mas comi lixo. O frio veio de repente, as pessoas sumiram, até que sem rumo cheguei aqui. Lembro-me de tudo rodando e depois… Acordei… – E chorou! – Elas se abraçaram e ali, viraram a página.

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