Medo da chuva

Por: Henrique Pakkatto

Juliana tinha agora oito anos. Perguntava a mãe, Dona Ester, o significado do mundo, o nome das estrelas e das flores, fingia ser princesa e sorria lindamente enquanto corria com as outras crianças no pátio do batalhão de infantaria.

Mas, toda vez que chovia, Juliana chorava em desespero e não adormecia à noite. Chamava pelo pai, um dos muitos desaparecidos no desabamento do Morro do Bumba, em Niterói. Seu choro soava forte pelos corredores do abrigo improvisado que virara casa para mais de setecentas pessoas arrancadas de seus lares. Não podiam reclamar da menina ou repreendê-la. Todos ali também choravam, ainda que em silêncio, como Ester.

–        O que significa viçoso, mãe?

No abril de 2010, no bairro de Viçoso Jardim, o morro, coberto não por verdejantes árvores ou arbustos mas pelo intrincado emararanhado de casas, veio abaixo. Diziam que a comunidade erguera-se sobre um aterro sanitário mal feito. O governo tentou  empurrar a culpa para os moradores. A imprensa denunciou um montão de coisas. Coisas que seriam levadas mais a sério se não fosse ano de Copa do Mundo.

–        A gente vai ter uma casa só nossa, mãe?

Em outro aterro sanitário mal feito, na casa de sua tia no bairro de Itaoca, Ester e sua filha souberam da tragédia. Haviam saído de casa no dia anterior ao deslizamento. A mãe chorou por vários dias enquanto via os caminhões de lixo tóxico e escombros despejarem o Bumba no município vizinho. São Gonçalo era o enorme tapete pra onde o governo de Niterói havia varrido o seu lixão.

Juliana demorou a entender que não voltaria para sua casa. Demorou a entender que não veria seu pai atravessar a porta trazendo pirulitos.

No lixão que acolheu o lixão não poderiam morar. A quantidade insuportável de moscas era um risco à saúde da menina. Após enfrentar sem sucesso o IML, reconhecendo os corpos de vizinhos e amigos sem achar o de seu marido, Ester levou a filha para o abrigo na Venda da Cruz. Não enterrou o companheiro. Não recebeu a pensão.

Ela pôs a filha no colégio, ganhou um ar duro, levou a tia para junto de si e passou a trabalhar como diarista. As crianças reinventam a vida. No batalhão, Juliana fez amiguinhos e viu passar dois aniversários. Pediu um presente especial no último:

–        Não tem foto do papai, mãe?

–        Tem essa aqui, filha. – E a menina sai correndo, satisfeita com a foto três por quatro arrancada de um documento.

Chovia naquela tarde quando sua mãe abriu a carta que finalmente lhe deu direito à pensão deixada por Argemiro. Não conseguia entender a forma estranha com que ela sorria. Mas ao ver que as nuvens emprestaram lágrimas a Ester, Juliana perdeu finalmente o medo da chuva.

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