Incesto

Por: Monique Vieira

Numa exposição, um artista apresentou um quadro que lhe deu farta notoriedade. Com um sorriso tão hipnotizante quanto o de Monalisa, obra de Leonardo da Vinci, a figura pintada retratava uma senhora que em pleno estado de graça estava a elogiar o pintor. A mulher, vestida de branco, como tivesse chegado ao orgasmo numa versão clara de complexo contrário ao de Édipo. Conversava com um menino, franzino e tristonho, que estava ao seu lado:

– É impressionante o talento dele! -disse a senhora.

– Realmente, está cada vez melhor! -falou o garoto.

Levada ao instinto, a mulher gritou:

– Lindo! Lindo! Lindo!

O menino, egoísta, muito bravo, em plena crise ciúme. Ordenou:

– Para de escândalo! A senhora está me envergonhando!

Ela, diante da censura, fez a típica expressão que era um formato que ela fazia com a boca que lembrava a de um ovo e falou:

– Ah, moleque pare de querer me controlar! Não é todo dia que recebe uma homenagem como essa! É o melhor presente que uma mãe pode ganhar!

O menino ficou em silêncio. Lembrou-se do papel de parede do seu computador, uma fotomontagem com uma poesia escrita que fez para sua “razão de viver”, mas apesar de limpá-lo diariamente nunca percebera.

Nem mesmo no dia que foi fecundado, chegando a chorar de tanta alegria no momento que recitava pra sua musa inspiradora. Sua única resposta foi:

– Continue assim! Que um dia ficará igual ao seu irmão.

Sempre comparava os dois. Mesmo quando venceu seu irmão, numa inédita queda de braço em festa de família. Surpreendida, a mãe, falou:

– Filho (pausa) com certeza se não fosse o cansaço… Venceria!

Enquanto isso na galeria era um entra e saí constante. Até que o pintor Luiz Brandão se aproximou, abraçou os dois e disse com um sorriso que ia de ponta a ponta:

– Dona Beth… Bruno Brandão… Vou para I-T-Á-L-I-A! Trabalharei com os grandes nomes da arte mundial!

E saiu como tivesse sido sorteado na Mega-Sena. A mãe chocada com a notícia virou para Bruninho e disse:

– Nunca me abandone! Jamais me deixe só! Senão eu juro, por Deus, que morro! E foram em direção à porta de saída.

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