Festa na casa de malandro

Por: Alexandra Silva

O taxi parou na esquina da Joaquim Silva, ele desceu, combinou o retorno com o taxista, caminhou devagar apoiado na bengala de madeira, nos pés, um sapato bicolor; terno de linho bem acabado e o velho chapéu palheta. A memória era boa e várias lembranças daquela saudosa Lapa vieram a mente e seus 85 anos não fizeram danos a ela.

Andou e parou em frente ao número 230, ajeitou o chapéu, olhou para fachada que não via há mais de 60 anos, respirou fundo, como se naquele momento, tentasse resgatar a aura da Lapa de 40, quando chegou ao local, pequeno e esperto; ganhou logo a simpatia dos malandros da área e os carinhos das polacas e tantas outras que o mimavam de vez enquanto.

Dentro do antigo bar Redenção uma turma muito animada estava às voltas com microfones, caixas de som e discos de vinil. Curioso, foi até o lugar, bateu com a bengala nas pernas de um dos garotos e pediu licença.

Entrou, olhou a sua volta e suspirou mais uma vez. A rapaziada olhou intrigada aquele cara, que parecia vindo de um filme antigo. Ficaram se olhando em silêncio. A rapaziada bolada e ele, querendo entender que tipo de festa estava era aquela, pergunta:

– Afinal, que tipo de festa é essa?

– Aí vovô! Isso aqui é uma batalha de rap? O senhor conhece? Respondeu Dig Mc. Sentado perto da porta, com um ar de sínico.

– Não. Nunca ouvi desse tal rap. E batalha para mim, só com as patrulhas.

Dig levantou, puxou a cadeira e fez com que o velho malandro sentasse ao seu lado e disse:

– Com todo respeito vovô, já tô ligado que o senhor é das antigas aqui da Lapa. E veio dar um rolé pra matar a saudade. Então, fica ligado que eu vô mandar uma letra sagaz pro senhor. Ligou o microfone, ajeitou o boné e soltou os versos.

Sou Dig Mc/ estou aqui frente a frente com a velha escola/ na tenho medo da malandragem/ pois meus versos faço a qualquer hora/ o vovô chegou aqui/ cheio de saudade/ tá ligado coroa/ agora aqui só tem sagacidade/ malandro agora trabalha, pega no batente/ mas depois do trampo na moral/ aqui ele fica contente/ minha rima é até pobre/ mas tá ligado, vovô/ sou moleque/ mas te trato como um nobre.

Dig parou em frente ao homem que estava lúcido e entendia muito bem o que era aquilo e pediu o microfone. Ele pigarreou e disse:

– Agradeço a homenagem a esse velho malandro que voltou para rever seu passado e lembrar as noites de jogo nos cabarés e dos sambas que fazia ao lado de grandes compositores e cantou assim:

No meu tempo de moleque/a vida era dura/ vivia a sofrer na rua da amargura/ com 15 cheguei aqui/ direto pro batente/ mas a vida me ensinou/ que a vadiagem me fazia valente/ saltava, esquivava, fugia da patrulha/ tinha minha pequena/ que não me deixava dormir na rua/ fazer samba era minha vida/ (breque) “mas o carteado pagava a comida”/ Sou Aldo Navalha/ conhecido assim / por causa da minha pastorinha/ me livrava a cara dos aborrecimentos/ apesar da idade estou bem da cabeça/ podem me chamar de tantan/ (breque) “fui amigo do Madame Satã”.

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