Esperando a mamãe

Por: Diego da Silva

Miriam estava sentada com as pernas cruzadas sobre o assento da cadeira da cozinha cujos azulejos outrora foram brancos, mas agora se encontravam encardidos de sujeira e gordura. Tomava chocolate quente e comia uma grossa fatia de bolo de chocolate enquanto brincava com os cachinhos de seu cabelo, enrolando-os na ponta dos dedos.

Em cima da mesa de madeira havia um retrato, envelhecido, de uma mulher. Do outro lado estava sentado Arlindo, de pernas cruzadas. Usava um paletó puído e tinha meias sociais pretas e esgarçadas recobrindo as canelas manchadas e enrugadas. O ‘tique taque’ do relógio sobre a geladeira antiga marcava o tempo, que passava devagar.

– E então, o bolo está bom?

– Uhum.

– Gostaria de mais chocolate?

– Não, tá bom.

O chocolate escorreu pelo canto da boca da Miriam. O velho levantou, pegou um lenço e limpou carinhosamente o rosto da menina, alisando-o.

– O que você quer ser quando crescer?

Miriam olhou-o, mal encarada.

– Médica de bichos.

– Você quer dizer veterinária. Que bonito. Você gosta de animais?

– Sim.

– E você tem algum animal em casa?

– Gato e cachorro. Minha mãe que cuida.

Os olhos pretos da menina brilharam cheios de lágrimas, transbordando e escorrendo pelo rosto.

– Não chore.

Alisou a face de Miriam, secando as lágrimas com uma mão. A outra ele apoiou sobre a perna roliça da menina. Ela virou o rosto. Murmurou “quero minha mãe”, baixinho. O velho soltou um suspiro, levantou-se e se sentou em sua cadeira. Ficou olhando para a garota, pensativo.

De repente, ela deu um pulo da cadeira se debatendo e empurrou a mesa, derrubando todas as coisas no chão. Começou a gritar e a berrar. Correu em volta da cozinha, derrubando todas as coisas que suas mãozinhas alcançavam.

– Miriam!

A voz do velho soou ríspida, forte e rouca. A menina parou assustada. O olhar inquisidor do velho acompanhou-a enquanto ela levantou a cadeira caída e sentou-se.

– Vai contar pra minha mãe?

– Não conto se você não contar.

Um pesado silêncio instaurou-se no ambiente. Miriam voltou a chorar, baixinho. Arlindo pegou o retrato que Miriam derrubou de cima da mesa. O vidro sobre a foto estava rachado.

– Quem É?

– Claudia. Minha mulher.

– E ela está com o papai do céu?

– Não…

A campainha tocou. A garota levantou-se, de um pulo. Arlindo atendeu a porta. Era a Mãe de Miriam. A menina abriu um largo sorriso e correu até a mãe, abraçando-a.

– Obrigado Seu Arlindo.

– Não há de Que D. Marília. Ficar com sua filha é sempre um prazer.

Mãe e filha saíram de mãos dadas. Miriam apertou a mão da mãe com força e olhou para trás. E viu Arlindo com o dedo indicador sob os lábios, piscando.

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