ESPELHADO

Por: Ricardo Oliveira

Fecha os olhos pra enxergar no escuro, lecionado à própria compreensão dos fatos, há apenas uma vida sob sua pele, uma única tentativa de permanecer vivo, nas lágrimas suprimidas pela falta de verbalizar as mágoas.

Sem perceber ao seu lado uma senhora lhe indaga:

– Posso te ajudar?

Há muito não vivencia compaixão, mas resolve relatar:

– No registro da humanidade estou na turma da sociedade, avaliado sou pelo corpo docente da emoção, cobrado nas matérias mais inusitadas, sucumbo a sorrisos afetuosos mascarando ilusão, vivo a realidade de não me encantar com nada se não a mesmice, selei pactos de sangue com a decepção, todas as vezes que projetei meus sonhos ao léu. Sai em busca de mim e deparei com o mundo.

Reconheceu não reconhecer a si mesmo diante do espelho.

– Por que está fazendo isso consigo mesmo?

O silêncio permeia os espaços indagando respostas, ela o questiona:

– Jovens sentenciam suas expectativas, sádicos de si sonham com os prazeres vazios e momentâneos.

Abandonando as mascara ele afirma:

– Sangrei a minha emoção, chorei rios de desilusão, magoados fui e me desfiz das sobras de mim restou um ser cadente de prazer, das fantasias vivi meus excessos.

Sem indagar os vibrantes negros olhos que engolem a sua visão deturpada de vida, ela o desafia:

– Aprenda a lidar com injustiças sem absorvê-las! – E continua:

– A indiferença testou minha paciência pra me ensinar que não se luta contra o tempo pra ver cada qual pagar seu débito com o destino, a paixão me ensinou que não é comum ser incomum a um desejo fantasiado de olhar. A decepção foi a maior professora na arte de avaliar e dizer que eu sou o limite da minha própria superação, e você também pode ser.

Pensativo, relata:

– Nasci pra ser assim, anos de vida e sempre ouvi dizer que deveria me domar, doutrinar e conquistar. Não disseram que deveria me aceitar, respeitar e me amar. Fui ensinado a mudar, me retratar e desculpar, nunca ninguém disse que deveria me estimular, inspirar e me expressar. Impeliram-me a repetir, a desistir, a relutar, disseram que era fraqueza admitir solidão, mas não me ensinaram a preencher o coração.

Ela titubeia sua própria razão, toma fôlego e proclama:

– Loucura os olhos teus, vejo realidade e medo!

Só não é possível viver o amor quando se deixa de amar, para aqueles que não enxergam a força de um porque e vivem limitados a uma exclamação. Pra quem vive desnorteado e mendiga emoção, faça dos desejos de liberdade mais que uma simples realidade de impunidade. Ainda que façam de você um fantoche no teatro da manipulação, correr riscos implica em cair, se ferir e magoar. Tudo é passageiro, todos temos um recomeço que também implica em se tornar mais forte pra saber perdoar principalmente a si mesmo.

E com um abraço leve aqueles dois mundos afastados pelo tempo se tocam e permitem se encontrar em meio aos desencontros das incertezas, vestidos de nostalgia e esperança na frente do espelho.

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