Diálogo de Um

Por: Poema Eurístenes

O velho cruzou as pernas com aquela leveza própria dos membros fadigados pelo tempo. Olhava-o fixamente, pensativo. Resolveu falar alguma coisa, pois o silencio já era tão estridente que corroia seus ouvidos.

– Menino, a vida não é tão complicada quanto você tá dizendo. Deixe de lamentação e vá aproveitá-la.

– Odeio esse papo de velho que sempre acha que todas as coisas que jovem diz é bobagem. Eu também tenho meus problemas, oras. Custa aceitar isso? – Respondeu o menino que, se pudesse, daria um tapa no velho tapado.

– E esse é seu grande problema?

– Você acha pouco? Meus pais decidiram que vamos para essa cidade que nem faço ideia de onde fica e tu acha que é bobeiragem de criança eu não querer ir?

– Sabe porque meus cabelos são brancos, rapazinho?

– Lá vem… porque tu é velho. Que pergunta!

– Não, você está enganado. Minha idade não tem quase nada a ver com meus brancos fios. Meus cabelos são brancos desde que eu tinha 20 e poucos anos. Fiquei assim, de cabeça toda branca porque sempre me preocupei demais com as surpresas que a vida me trazia.

– Vovô, na boa, não quero ouvir isso. Se você é um velho problemático, tô nem aí. Sei que meu problema é sério e vou dar um jeito de resolver. Não vou deixar barato isso que eles estão querendo fazer comigo. Se eles queriam transformar minha vida em um inferno, conseguiram. Mas, agora é minha vez.

O velho sorriu. Sua superioridade anciã incomodava ao garoto.

– Quê que foi? Tá crendo não?

– Não é isso. Acredito que você é totalmente capaz disso. E exatamente por isso estou rindo.

– Agora não entendi. Qual é a tua?

– Bem, não ligue para o que um velho senil diz. Você, um menino de doze anos, certamente sabe mais do que eu sobre o que deve ser feito.

– Não adianta tentar me convencer. Não vou mudar de ideia. Não fui eu que comecei e não serei que terminarei essa confusão. Agora, quero ver o circo pegar fogo.

– Eu sei que não vou te convencer. Então, só vou te dizer uma coisa que você provavelmente não levará em conta, mas vou falar de qualquer forma porque sou um velho e os velhos têm meio que obrigação de virar sábios conselheiros.

O velho deu uma longa piscada e tomou fôlego, mas quando abriu os olhos o menino não estava mais lá.

– É, menino, seria bom se você pudesse ouvir…

Lembrou do dia vinte e quatro de setembro, quando chegou a sua nova casa. Seus pais eram pura alegria, sua mãe grávida e o pai com novo emprego, seria gerente do banco do centro da cidade e por isso precisavam ficar mais perto da agência.

Na hora do jantar, ele resolveu que colocaria um pouco de pimenta no suco, só para animar um pouco a refeição. Quando sua mãe pegou o copo e tomou um gole, foi um alvoroço. Ele não entendeu o motivo de tanto descontrole, afinal, era só um de pimenta. Logo depois que seu pai chegou do hospital, descobriu. A mãe era alérgica. O bebê não. Ou pelo menos não que ficasse sabendo, pois ele nunca chegou na casa.

O velho suspirou. Fechou o caderno antigo e empoeirado. Pensou em jogá-lo fora. Mas o menino, não o do papel, mas o que morava dentro dele carecia de ouvir.

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