Danças de empinar passarinho

Por: Geórgia Ramos

Uma tarde de verão, mas ainda cheia de primavera dentro. Um parque sem diversões no meio da tarde, no meio da primavera no meio do verão. Uma cena meio de lado, no meio do parque de dentro dos meus olhos-pensamentos. Uma vida ali se recompunha e recomeçava o mundo…

A – Oi! Sabia que hoje é meu “diaversário”?

B- Oi! Oi?

A- Sim. Não gosto de esperar um ano inteiro para versar.

B- Mas não se trata de versos, meninazinha, se trata de vida passando, acúmulo de dias, horas, meses e, finalmente, ano. [dizia dona Rizoflora sem muita esperança de ser compreendida]

A- Mas acúmulo de que? Fazendo o que? E quem disse à senhora que a vida não pode ser contada em versos, ou estrelas, ou imitações de passarinhos, ou quantidade de travesseiros que a senhora já abraçou, ou esquinas que já passamos, ou músicas que já…? Meu dia só começa quando uma árvore me beija. E minha semana, que só termina quando a próxima faz muita, mas muita, questão de chegar pra ficar comigo. E eu só deixo quando tenho a garantia de que não vou ficar sozinha, sem semana nenhuma.

[e dona Rizoflora se cansava, mas prosseguia ali sentada já que não tinha mais nada a fazer naquela hora, nem dia, nem semana. Ee começou a pensar como é isso de levar tantas vidas pelos anos a fora sem que essas prossigam vivendo]

E a menina seguia seu plano de fuga do tempo-espaço-convenções – sem se dar conta de que aquilo se chamava liberdade. E que, de tão livre, nem nome tinha.

A- Dona Risos, posso dizer assim da senhora? Vamos praticar nossos nomes? Não vejo seu nome em você. Por quê? Hoje eu me chamo – e peço que me chamem também – de Jude. Assim, ó: “Hey, Jude”! Que é pra eu poder responder cantando e dançando. (risos) Sabe, dona Risos, eu, na maior parte do tempo me acho diferente dos outros e vivo disso. Vejo que alguns dizem de adultos que me imitam estarem loucos e que aquilo ou aquilos não é normal para gente grande. E dão remédios. E guardam elas numas casas que não dá para entrar nem sair quando se quer. Um dia ainda vou lá saber sobre o que eles estão conversando e o porquê de tanto segredo.

B – Menina…

A-Dona Risos, pode usar meu nome de agora.

B- Hey Jude, uso seu nome e você me respeita o uso, me alegrando. Vou te confessar uma coisa: Eu, olhando pelos olhos dos outros, já tenho muito tempo. Só que agora estou tomando seus olhos para mim e pensando e sentindo minha imaturidade de vivências. Preciso me apressar, porque o corpo também tem um tempo diferente de todos os outros, e ir usar meu nome e o seu e levar sua semana pra passear com você dentro e resgatar meus sonhos de dentro do travesseiro deixado no sótão. Senão morrerei sem ter passado por tempo, ano, árvore, esquina, pensamentos, sem ter usado meu nome.

A – Quando sinto esse todo de sintonia assim digo que um movimento enorme aconteceu no universo. E ele dançou. E nós ficamos bonitas por dentro. E se fecharmos demais os olhos a gente passarinha. Feliz “diaversário”, Dona-Querida-Eu-Risos!

B- Feliz, Dona-Querida-Eu-Flora!

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