Como é bom ser criança

Por: Igor de Oliveira – Bola

Juquinha tem nove anos, no auge da ingenuidade caminhando na linha tênue entre a inocência e a consciência sai da casa da “bisa” afim de comprar um sorvete na sorveteria do seu Aroldo, que minutos atrás quando chegava com sua mãe para o aniversário havia encontrado somente alguns passos da casa.

A mãe de Juca de cara discorda, pois sabe quão perigosa pode se tornar essa simples ida na esquina, mas sabe como é avó, e nesse caso era avó e bisavó ou seja dois contra um. Enquanto a mãe se encontrava apreensiva Juca chegava a sorveteria, devidamente educado se dirige ao senhor que se encontra no balcão:

Boa tarde, eu quero um de duas bolas, uma de chocolate e outra de morango.

É pra já.

Antes de colocar a cobertura que suja o copo plástico os fogos estalam, para qualquer menino de nove anos que morasse por ali entenderia o que estava por acontecer e logo lembraria do aviso de seus pais dizendo que se os fogos estalassem era pra voltar correndo para casa ou então nunca mais sairiam novamente de lá. Então seu Aroldo grita:

Corre que é bala!

Ué, mas hoje nem é dia de São Cosme e Damião!

Assim que percebe a situação Aroldo agarrou o menino passou por cima do balcão e baixou a porta, exatamente no mesmo momento em que os tiros começaram. Logo se vira para o Juquinha e indaga:

O que pensa que está fazendo?

Tomando meu sorvete oras!

Aqui na favela não é mole moleque!

Eu sei está ótimo, não está derretendo pode ficar tranquilo

Não é do sorvete que estou falando presta atenção.

E é do que então?

Aroldo sai meio irritado falando alto, fala para Juquinha esperar enquanto vai dentro de sua casa fechar as janelas e desligar todos os eletrodomésticos para não queimar nada. É comum que durante as trocas de tiros acertem os postes de luz e acabe queimando aparelhos como televisores e computadores.

Aroldo volta logo em seguida falando:

Eu sou nascido e criado nessa favela já moro aqui a sessenta e três anos, já vi de tudo aqui moleque!

Que? Já vendeu tudo! Tava pensando em tomar mais um depois desse.

Aroldo já demonstrando estar sem nenhuma paciência e entendendo que esta conversa não tinha futuro responde o menino dizendo que o sorvete acabou deixando para lá as explicações que estava dando, explicações do qual Juquinha parecia nem prestar atenção estava mais concentrado em raspar a cobertura junto com o restinho de sorvete que estava no final do copo.

Aroldo então fala para o menino esperar só mais um pouco que logo o tiroteio deve parar. Novamente sem obter sucesso em atrair a atenção de Juquinha que estava compenetrado agora nos potes de bala, Aroldo vai até os potes de bala vira-se em direção ao menino e pergunta:

Qual dessas você quer ?

Eu quero todas as amarelas!

Enquanto a bala come, Juquinha come bala e espera tranquilamente sem em nenhum momento pensar na mãe ou na avó enquanto comia doces nem ao menos teve a capacidade de entender o que estava acontecendo.

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