Ciúmes

Por: Henrique Pakkatto

Marconi caminhava em círculos há alguns minutos. Sem se importar com as outras pessoas ao seu redor, parou diante da janela e contemplou pensativo o movimento lá fora. De canto de olho observousua mãe sentada no banco de concreto.A velha senhora mais parecia um farrapo humano. A magreza cadavérica e os olhos fundos e vermelhos denunciavam o sofrimento que Eleonoravinha passando nos últimos tempos.

– Ele vem? – Marconi perguntou.

– Você sabe que ele não pode.

– Que pena. Eu amo muito meu irmão.

Mais uma vez, parou diante da janela. Um pensamento o acompanhava: em sua memória revia sua mãe e seu irmão o tempo todo rindo, brincando; muitas vezes gargalhando sem que Marconisoubesse o motivo.Por vezes, chegava a pensar que riam dele. A cumplicidade dos dois o corroía. Por que ela não o tratava da mesma forma? Ele também queria rir; na verdade, desejava ser amado.

Com as mãos trêmulas, pegou um copo com água e tentou beber. Desistiu. Apesar da boca seca, não tinha sede. Lembrou-se de quando ainda criança, ficava sempre em segundo plano, porque todo mundo só falava do Marcelo. “Dona Eleonora, o Marcelinho é muito inteligente!”“Poxa, Dona Eleonora, quando esse seu filho crescer…”. Algumas pessoas até amenizavam: “o outro também é bonitinho, mas o Marcelinho…”. Novamente Marconi perguntou:

– Ele não quer mais me ver?

– Já disse que ele… – os soluços impediram que ela continuasse a frase.

– Você não gosta de mim?

– Não fala isso, meu filho,é claro que eu gosto.

– Eu brigava na escola, você nem ligava. Tirava nota baixa, você nem aí. Quando eu caía, “Ah, não foi nada”, agora, se fosse o Marcelinho?

Novamente era tomado pelo pensamento: “Eu amo meu irmão. Apesar de tudo, eu gosto muito dele”.

Olhando fixamente para o Portinari na parede, em seu pensamento surgiam lampejos da infância: Marcelo chegando sorridente, exibindo o boletim escolar como se fosse um troféu. Em outro momento Marcelo entrando para a faculdade. Mais um flash, dessa vez era o casamento do irmão. “Ele tem tudo que eu não tenho” – falou para si. Depois perguntou, quase gritando:

– Por que ninguém gosta de mim?  – agora aos berros: – O que eu tenho de errado?

Dona Eleonora, em silêncio, secou os olhos. Com uma mistura de raiva, tristeza e piedade, lembrou-se da fria manchete do jornal: “Irmão matou irmão com golpes de pedra, por causa de ciúmes”. Já era tarde, tinha que ir embora. As últimas palavras quase não saíram:

– Adeus, meu filho, eu te amo.

Eleonora saiu chorando, levando consigo as dores da tragédia. Sorrateiro, no pátio mal iluminado, Marconi seguiu-a, se escondendo entre os arbustos. Quando ela se aproximou do portão principal,Marconi pegou uma pedra no chão e partiu para o ataque.

Foi contido em tempo pelos médicos. De forma mecânica deixou a pedra cair; fez meia volta; cruzou novamente o pátio e entrou. Em cima da porta um letreiro dizia: “Manicômio Judiciário – Pavilhão B”.

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