Arte: pratica e apreciação

Por: Vivian Farias

Eram duas mulheres. Duas mulheres bem diferentes que, ainda sem saber, tinham muito em comum. Uma estudante de filosofia, de 29 anos de idade; a outra, mestra em palhaçaria; de 58. Os corpos não “combinavam” com as respectivas idades. Mas não se conheceram a principio, corporalmente.

Apesar de estarem num espaço físico onde uma oficina de praticas circenses estava sendo ministrada aquele dia o encontro se daria pelas ideias trocadas, pois era uma aula de experimentação e  apreciação artística.

A mais nova estudava filosofia e era aluna por vocação. Havia quem não entendesse o porquê de se meter em tantas oficinas de arte, circo, consciência corporal.

– Ora, as pessoas ainda querem segregar as coisas. – pensava.

 Pra ela a filosofia era uma das formas mais antigas de arte, a arte das ideias e das palavras. E da arte ela queria experiência o quanto pudesse.

Nesse dias o esses corpos se encontraram num mesmo espaço físico e foi, após a apreciação artística onde a mulher mais velha foi a mediadora, que ambas foram caminhando juntas pra casa. Cinco quilômetros. Sim, descobriram ter em comum, além da paixão pela arte e caminhada o mesmo caminho pra casa. E foi nas, aproximadamente duas horas de calma caminhada, que se conheceram.

A mais velha: um corpo incrível, vivo, firme.

A mais nova: mente bem trabalhada, uma sede de conhecimento que a coloca sentada durante quase seis exaustivas horas diárias dedicadas a leitura e estudos intelectuais; mas seu corpo  não a acompanha.

Trocaram muitas ideias, experiências de vida. Falaram de todas as portas que abriram e de todas as outras que deixaram fechadas por escolha. Não, nenhuma das duas “já sabia o que havia ali” sem nem ao menos ter aberto a porta; mas ambas tinham em comum a certeza do caminho e do que levar da vida.

Na despedida a mais velha deixou um convite

– Venha conhecer minha escola de circo.

A mais nova foi.

Ambas foram crianças juntas por muito tempo e nessa relação de mestre e aprendiz nunca houve hierarquia ou troca por interesse. A mestra em corpo voltou a estudar. Quem diria que aquela pessoa tão sábia tão bem sucedida socialmente, não tinha completado seu ensino médio?

A estudante pode enfim, conhecer a si mesma através da arte de experimentar o ridículo através da palhaçaria, muito além da ideia que fazia das possibilidades do que era estar viva.

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