A redação de Marisa

Por: Andreia Coutinho

A praça estava cheia do piar dos passarinhos e dos gritos das crianças correndo. De um lado, o parquinho com gangorras, escorregos e balanços, e de outro, um círculo de banquinhos em frente ao lago do chafariz. O céu, mais azul do que nunca, estava desenhado com nuvens e gaivotas. No chão, pombos atrás de milho e folhas caídas do flamboyant. Não existe faixa etária para ser público de praça. Bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos – há lugar para todos. Para os que gostam de sentar e conversar sem precisar consumir alguma coisa, que procurem uma praça!

Há quem diga que encontros e desencontros nunca acontecem por acaso. “Na fila do banco, no meio da multidão do centro da cidade, pelos corredores de uma instituição ou até mesmo no banco de uma praça – sempre é tempo de bater um bom papo”. Essa era a teoria da dona Marisa. Adorava encontros não previstos.

Como assim? Ela adorava conhecer pessoas com quem pudesse compartilhar alguma lição de vida. Depois de sofrer um acidente de trem, os trilhos cerraram suas pernas e ficou paraplégica e se aposentou por invalidez. Antes disso era jornalista, andava pela cidade de São Gonçalo inteira e adorava apurar, correr atrás de notícias quentes e não depender de ninguém para fazer o que queria fazer.

A praça se tornou a redação de dona Marisa. Era bem pertinho da sua casa, e não despedia de ninguém para levá-la. Lá, escrevia reportagens simultâneas sobre a vida das pessoas que encontrava. Observava, achegava-se e perguntava:

– Podemos conversar uns cinco minutinhos?

E nunca era só isso. Ela envolvia as pessoas em um diálogo fabuloso de perguntas e respostas comprometedoras. Parecia um diálogo de investigação. Por incrível que pareça, as pessoas não a hesitavam. Entregavam suas histórias de vida, pois ela não tinha nenhum interesse comercial e nem muito menos maldoso.

A última vítima desse jogo inusitado, foi o menino de rua João Gabriel, naquela tarde de outono. Estava frio, e ele andava descalço, sem casaco e sujo pela praça. Marisa acelerou sua cadeira de rodas a fim de aproximar-se dele. O menino parecia assustado, com cara de criança que não comeu e não dormiu. Ele parou ao perceber que ela queria falar.

– Você fugiu de casa? – perguntou sem pedir licença.

– Como você sabe? – retrucou assustado.

– Adivinhei!

– Meus pais não sentirão minha falta, por isso vim para cá. Longe da Zona Sul eles nunca vão me encontrar.

– Você me contaria o que aconteceu?

– Meu pai disse que eu tenho jeito de menina.

– E você tem?

– NÃO! Claro que não.

– Então por que deu ouvidos a ele?

– Porque ele disse que eu era a maior decepção da vida dele e eu não quero mais ser. Lamento pela minha mãe.

Ela deve estar sofrendo. Mas eu nunca mais volto para casa.

– Qual o seu nome?

– Para que? Você vai me entregar?

– Não. Prometo!

– Mas eu prefiro não dizer. Desculpe!

– Tudo bem. E sua idade?

– Quatorze.

– E se formos para a minha casa? Posso contar minhas história de família para você…

– Vamos!

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