65 INVERNOS

Por: Enrique Coimbra

Dezessete invernos quentes de decepções e um lobby de hotel barato. Para quem se limitava a se guiar pela rota das estrelas laranja nos céus da zona oeste, encontrar o pequeno prédio espremido entre Leblon e Copacabana foi complicado. Desceu no ponto errado, caminhou por quase vinte minutos e só parou quando a fachada sem brilho lhe mostrou que o tempo parou para aquela construção socada em concreto, cheirando forte a verniz.

Placas de vidro, carcomidas, separavam o hálito quente dos bueiros dos móveis entalhados à mão de não se sabia quem. R. se identificou como “amigo” quando inquisitado pelos olhos desprezíveis do recepcionista com ares de superioridade, analisando os moletons puídos e os anéis de prata enegrecidos do garoto que, agora, recebera a permissão para pegar o elevador, única modernidade competente além da TV de plasma pendurada ao lado da falsificação de Monet e do Windows 98 desatualizado.

Quanto mais demorada a vinda da cabine claustrofóbica, que sufocaria ainda mais suas expectativas, menos seu coração priorizava vitalidade. “Para morrer, bastava se esquecer de estar vivo”, repetia pelos canais rosados sob sua careca crespa. Gostava de brincar de poeta quando ninguém estava olhando. Não que alguém visse, quando olhava.

— Te falaram que é adiantado, né? — deixou os sentimentos na porta, sobre o tapete de boas-vindas, com um “volto logo”.

— Está sobre a televisão. — murmurou ela, a voz partida.

R. se despiu sem demorar. A contagem regressiva da hora que os transportava ao passado efêmero do presente não parecia afetar as rugas alisadas cirurgicamente nos cantos dos olhos da senhora sobre a cama. O vestido roxo, de altíssima classe, contrastava com os borrões marrons dos lençóis encardidos, massacrava o orgulho das cortinas banhadas pela Lua.

— Não. — ordenou, interrompendo R. e a tentativa de deixa-la nua. — Não foi para isso que lhe chamei.

— Foi pro quê?

— Quero que me olhe. Quero que me deseje como se eu fosse uma daquelas meninas para quais você assobia quando passa. Só isso. R. se jogou na cama e virou de barriga para cima.

— Me pagou para se sentir jovem de novo?

— Não. — ela desvelou os grandes dentes, tão amarelos e caros quanto ouro, num sorriso elegante. — Te paguei para me sentir amada outra vez.

Durante segundos, pôde assistir a língua da senhora amargurar e murchar, sugando os preenchimentos que a mantinham no estado permanente da jovialidade perseguida com suor e reproduzida com imperfeição pelas mãos de tatuadores de plástico, senhores dos espelhos rachados pela marcha dos ponteiros cíclicos na parede.

— Posso te devolver o dinheiro.

Instigada com a quebra de silêncio repentina do belíssimo rapaz da cor dos lençóis que tapavam o sexo perfeito do início de vida, perguntou:

— Por quê?

— Porque não sou ninguém.

Essa mulher era como ele, um monte de carne tapando buracos no espaço, matéria sólida que não podia ser vista, quando olhada.

— É. — ela segurou as lágrimas mordendo os lábios. — Nem eu.

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