Sabedoria

Por: Edilano Cavalcante

A noite já havia lambido o céu de Fortaleza,quando uma mulher magra, vestida de preto em um estilo elegante, caminhava solitária cortando a Praça José de Alencar. Seus cabelos pretos se misturavam com alguns fios prateados pintados pelo tempo, era Sofia, uma psicóloga bem sucedida e respeitada no que faz.

No entanto ela tinha algo a mais em seus genes que a diferenciava dos outros seres, era provida de um dom que a impedia de viver naturalmente no meio social. Sofia tinha a habilidade de ouvir pensamentos, principalmente os ruins, quando começava qualquer afinidade com alguém, em minutos algum tipo de pensamento que a impedia de continuar.

No dia de seu aniversário, depois de muito chorar pela solidão, Sofia decidiu se suicidar, iria se jogar de escritório, que ficava no 11° andar ao lado da praça que ela caminhava a passos pesados.

Quando Sofia concluiu seu percurso e olhava com tristeza do alto da janela a um passo da morte, algo surreal aconteceu, um a voz infantil quase palpável tomou o lugar.

– oi tia

Sofia quase caiu sem querer, só podia está ficando louca, pensou.

– o que está fazendo tia? Porque não acende a luz, não gosto de escuro. – continuou a voz, agora identificada como a de um garoto.

Depois de alguns segundos pensando apavorada, Sofia não teve duvidas, alguém estava falando com ela telepaticamente.

Ela recuou da janela, olhou pra sala escura e fechou os olhos, rapidamente a imagem de um garoto de pele escura com no máximo 10 anos, pairou à sua frente, ele estava deitado em cima de uma cama dentro de um quarto espaçoso, dormia sereno.

– oi rapazinho, como me achou aqui? – perguntou Sofia curiosa.

– não sei, costumo ouvir o que as pessoas pensam, mas, vi a senhora e também posso ouvir, desculpe, foi sem querer.

Sofia riu, seria muita ironia do destino achar alguém, que tem o mesmo dom que ela, no dia em que havia escolhido pra morrer.

– onde você mora criança, qual o seu nome?

– Mateus, eu moro …perto da minha escola, no Rio de janeiro.

Sofia poderia ficar ali conversando que aquela criaturinha por horas, mas não sabia quanto tempo ele iria suportar a conexão, então foi direto ao ponto mais importante, embora fosse egoísta sua pergunta, quis saber o que o garoto ouvia das pessoas.

– Eu escuto muitas coisas boas, meu pai disse que eu devo sempre buscar ouvir além do coração, porque o coração fica sujo de pensamentos ruins e impede de ver a alma pura.

Não foi o que Sofia esperava.

– eu também escuto vozes iguais a você, mas às vezes elas me machucam muito. – Sofia já não se entendia, passaram pela sua cabeça seus pais, os primeiros a julgá-la, ao invés de ensinar, amar e aceitar sua diferença.

– Meu pai disse que devemos ver sempre o lado legal da vida, para que a vida e as pessoas nos aceite do jeito que somos. –o garoto deu uma pausa – meu pai fala várias coisas, mas eu ainda entendo tudo.

Sofia não respondeu, abriu os olhos, fechou a janela do escritório e pegou o elevador vazio. Talvez nunca mais conseguisse achar aquela criança, mas iria obedecer aos conselhos de seu pai.

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