Por um segundo mais feliz

Por: Jeferson Pedro

Além de ter que abrir mão da sua liberdade, um homem na cadeia nunca dorme. Com medo. Se não dorme, também não sonha, pois a felicidade de um preso é muito cara e o inferno nosso de cada dia é aqui mesmo, bem perto dos olhos.

Durante os doze anos preso, viu coisas que deixaria arrepiado qualquer mortal. Companheiros de cela matavam, se enforcavam, se envenenavam e iam morrendo de todo o tipo de sorte e de azar também.

Mesmo com as regras da cadeia, ainda sentia pulsar no peito, o velho senso revolucionário. Revoltado com aquele horror tinha dias em que desejava comandar uma rebelião e explodir tudo! Ora, estamos falando de um homem que viveu uma das épocas mais difíceis no Brasil!

Na década de 60, o pai ainda não tinha voltado da guerra e a mãe além da ausência do marido, ficava em casa sofrendo e rezando por ele, que lutava com a polícia nas ruas do Centro do Rio de Janeiro, contra toda aquela loucura chamada ditadura.

Nesta época conheceu Marisa com igual espírito revolucionário. Impossível não se apaixonar pela beleza esfuziante da morena de cabelos compridos e cacheados, estudante do Colégio Pedro II.

Quando a família dela descobriu o romance, mudou-se para São Paulo. Foi como um corte na carne, sem avisar. Após a separação, sem nenhuma carta, nem telefonema de Marisa, ele afundou-se numa depressão que parecia não ter fim. Numa vã tentativa de esquecer a amada, consumia sem restrição pó, álcool, maconha, tudo o que ‘dava onda’ para ter a sensação de esquecê-la por alguns segundos.

Tomado por um acesso de raiva e rebeldia, durante um protesto na Cinelândia, ele atirou em um policial, fugindo em seguida. Debilitado e ferido, não foi difícil encontrá-lo, pois seu sangue escorreu pelas ruas, revelando seu esconderijo. Foi pego e torturado por uma semana. Apanhou muito, mas não revelou um nome se quer. De tanto resistir, cansou os investigadores que o condenaram.

Depois de cumprir a pena preparava-se para sair. Era como nascer de novo. Olhou-se no espelho e agora com os cabelos cinza colorindo a cabeça, podia se orgulhar de ter histórias para contar. Algumas boas, muito boas, outras nem tanto.

Tentou apagar da memória o que não tem mais como ser apagado. Sentia saudade do que nem se quer tinha vivido. Arrumou a mala com as poucas roupas, seguiu até a entrada do presídio. Recebeu um papel que não leu, olhou para o céu chuvoso e sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto.

No portão parou, pousou a mala no chão e avistou uma mulher de vestido longo e estampado, segurando um guarda-chuva numa mão e um cigarro no dedo da outra. Era Marisa e ele sentiu mais lágrimas fazerem ondas em sua face.

Ela olhou para ele, riu e atravessou a rua ao encontro do amado. Abrigou-o no seu guarda-chuva, colocou o cigarro nos lábios dele, beijou o rosto, enxugando e bebendo uma daquelas tantas lágrimas. Depois de tudo que passou na vida, aquele homem triste, que tantas vezes desceu o São Carlos com Gonzaguinha, teve a sensação de que poderia voltar a ser por um segundo mais feliz.

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