O papel

Por: José Luis Rocha

Uma derrapada na curva fez com que o carro dos agricultores voasse de encontro à árvore. As paralelas de borracha mostravam que a placa indicativa: “curva acentuada à esquerda” foi ignorada. Emerson, ou Minho como era conhecido, não foi poupado de ver a cena macabra, na qual seu pai e seu avô foram fatalmente vitimados.

Com soluço engasgado e lágrimas entre as sardas do rosto, Minho observou, com os olhos turvos, a mão direita de seu pai abrir para sempre, após pequenos espasmos da morte; de onde caiu um papel dobrado, que o menino pegou sem que ninguém notasse.

Aos 10 anos, era o primeiro contato com uma dor nunca sentida antes. Seu time de amigos estava desfalcado. “por que as pessoas morrem?”, perguntava-se. Dormiu de dor. Sonho inquieto, onde aparecia o pai dizendo repetidamente: “O papel… O papel…”.

Suando muito e com o coração palpitando, acordou. Pegou o papel na gaveta e finalmente leu. “Meu pai quer dizer alguma coisa…”. “Será que Seu Noca me ajuda? Ele sabe de tudo!”.

Ainda matutando, concluiu: “Ah, já sei!”. Saiu em disparada.

– Mãe, mãe! O que é cloro?

Após a explicação, trancou-se na internet para pesquisar. Espatifou o porquinho de louça e saiu. Comprou alguns produtos, driblou a mãe e enfiou-se no quarto. Numa jarra jogou parte de cada ingrediente. “A sobra eu vou guardar pra mamãe…”.

Misturou e bebeu a metade. Fez careta. Empunhando uma caneca com a outra metade, saiu em ziguezague, tropeçando. Os 300 metros até a casa de Seu Noca, pareciam 300 quilômetros. No percurso de sua maratona particular, recebeu o incentivo do cachorro que gritava:

– Vai! Vai!

Gatos, passarinhos, sapos, cabras, leões, dragões, dinossauros e muitos outros bichos o acompanharam; gritando:

– Vai! Você consegue!

Enfim, entrou no casebre do velho Seu Noca, que aos 80 anos, morava sozinho. O velho fingiu não ver que ele escondia algo atrás de si.

Cabeça rodando e pernas bambeando, o menino falou com a voz mole:

– Seu Noca, por que a gente morre?

– Porque Deus quer – simplificou, preocupado.

– E por que Deus quer? –

Seu Noca filosofou:

– Porque Deus é justo e trata todo mundo igual. Um tem que morrer para outro nascer. Imagina um teatro ou cinema: se ninguém sair, outros não podem entrar; e o espetáculo é para todo mundo.

– Mesmo assim morrer é ruim. Vamos não morrer? – sugeriu, apresentando a sinistra bebida. Utilizou o Batman de plástico, que tinha no bolso da camisa, como uma colher para mexer o líquido:

– Toma, bebe! Foi meu pai que mandou. É elixir defensivo, para ninguém nunca mais morrer.

Mal Seu Noca pegou a caneca, uma pressão subiu do estômago, passou pelo esôfago e saltou, em jato pela boca do menino. Jorrou. Vencido, tombou no sofá.

Seu Noca o levou para casa, no colo. Perante uma mãe assustada, o velho pegou no bolso do menino, ao lado da miniatura do Batman, uma folha de papel dobrada, onde se lia: “álcool, água oxigenada, sal, querosene, inseticida e cloro”, na parte superior o título: “Defensivo Agrícola Caseiro”.

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