Novo lar

Por: Luiz Fernando Pinto

Aconteceu quando todos já tinham desistido. O velho do armazém foi vencido pelo cansaço. Dona Maria, a fofoqueira, preferiu bisbilhotar a vida dos vizinhos e falar mal do padeiro. Seu Juca dizia não ter tempo para essas coisas, afinal tinha que sustentar seus sete filhos e dois agregados.

O problema não era apenas o cheiro, Francisco sempre gostou de morar em Vila Aliança, conhecia tudo no bairro, becos, quitandas, vielas, vizinhos… sempre ao lado de Samuca e Pedro que eram seus melhores amigos.

Quando aconteceu, ele já era conhecido como Chico, moleque danado, curtia o baile funk todas as sextas feiras, gostava de teatro as segundas e quartas, terça era dia do fliperama na padaria do seu Juca, quinta descansava ,até porque ninguém é de ferro, Sábados e domingos trabalha na Kombi com o padrasto José.

A mãe, nordestina, antes de morar em Vila Aliança fincou raízes no morro do Pasmado na década de sessenta, mas não foi por muito tempo, depois de um incêndio daqueles que ninguém sabe como aconteceu, foi removida junto aos filhos para a zona oeste da cidade.

No começo foi difícil, pois perdera emprego, vontade de viver e o marido de uma só vez. Mas apesar de humilde sempre teve caráter e opinião formada, não se deixava levar tão facilmente.

Chico vinha planejando há meses o que faria na tarde de ontem, depois de ouvir da mãe a história de como a família chegou até o bairro, Francisco da Silva, com o orgulho nos olhos, foi até o guarda roupa, vestiu o macacão azul marinho no qual só usava em datas festivas e sorrateiramente calçou o antigo kichute já meio amarelado pelo tempo.

Já defronte ao espelho olhou o reflexo do menino que estava prestes a se tornar homem, respirou fundo e espantou o medo que estava do seu lado direito, à esquerda a certeza de que seguiria em frente. A porta entre aberta anunciava, lá fora, uma tempestade que há dias ameaça sua chegada.

Por volta das duas da tarde uma aglomeração se fez no meio da praça. Rumores diluídos de vozes humanas misturadas ao barulho do vento norte que varria a vila há vários dias levando para longe aquele cheiro.

Samuca e Pedro rapidamente os abordam com panfletos, curiosos se aproximam o padre em vão solicita que o menino desça do caixote. Naquele momento o rapazote com voz de trovão discursa sobre os fatos ocorridos e o que poderia estar por vir.

Entre a multidão atenta, vai agourando murmúrios, palavras como remoção, passado, incêndio vai surgindo até que Chico avista sua mãe entre o povo, com os olhos mergulhados em lágrimas fala das possibilidades que vem matutando há dias. Percebendo o olhar de sua mãe orgulhosa com a dedicação e o desejo do filho e o semblante dos moradores que ali estavam, vislumbrou um novo inicio para a favela que adotara como lar.

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