Menina Vera e Seu Ivan: a conversa que ninguém ouviu

Por: Viviane de Sales

Com uma incontrolável vontade de chorar pelos sete cantos que Vera se despediu de Ivan, ao descer da carona no ônibus escolar à altura do Instituto Moreira Salles.

Dona Vera, viúva e artista plástica moradora do Horto, não suporta passar uma tarde inteira sequer enfurnada no luxo solitário da mansão onde coleciona as lembranças do casamento mais ou menos feliz e dos sucessos da carreira. O que ela gosta mesmo é de passear entre as árvores do Jardim Botânico, ouvir o canto de quem sobrevoa céus, andar pela calçada feito gente normal com os passos cortados pelos raios de sol.

É uma artista muito viva, com seus setenta anos ainda circula o Rio procurando exposições no habitual circuito Centro – Zona Sul. Procura manter a cabeça aberta e diz preocupar-se mais com as notícias do “outro lado” da cidade do que com o noticiário internacional. Mas todos sabem: Dona Vera gosta mesmo é de conviver com a beleza das múltiplas cores da vida, e por isso nunca perde uma primavera de passeios na Europa.

Ivan, moleque da Rocinha, tem onze anos e é morador da Rua Um. Acha um absurdo que a Prefeitura queira mudar o nome de sua rua. Sempre foi Rua Um, tem que continuar sendo Rua Um. Passou a última semana reclamando disso e até escolheu o tema para fazer uma redação na aula de português. Tirou dez. Com estrelinha.

Escola Municipal. Entra burro e sai animal. A escola do Ivan deu azar e fica exatamente na rua de Vera. Quatro ônibus escolares facilitam o transporte dos estudantes do Horto à Rocinha, mas infelizmente atrapalham a caminhada matutina de pessoas tão ilustres e preocupadas com a vida real carioca, como a Vera.

Barulho. Pouco espaço na calçada. Rodas pesadas em cima do concreto de ouro do chão do Horto. Dona Vera mobilizou as borboletas da vizinhança, tirou fotografias das rodas tão más e ligou para os jornalistas.

Cada um com o dilema de sua rua. Ivan e Vera viam-se quase todos os dias na porta da escola, embora nunca tivessem conversado. A vida é corrida. Além disso, reza a tradição local que “madame é madame, enquanto uniforme de escola pública tem cheiro de pobre”. Mas Dona Vera se dizia senhora descolada…

Chegaram câmeras. Flash. Burburinho infanto-juvenil. Viaturas de PM. Ninguém ali sabia direito o que era a confusão criada, nem Ivan. Mas o moleque teve vontade de levar aquelas câmeras até a Rua Um.

Vera acionou seus contatos na mídia à toa. Não tinha pauta séria para a imprensa naquele lugar, era um mico completo. Moleque abusado, Ivan convidou Dona Vera a andar no ônibus que ia para Roça. A madame deu de ombros.

No dia seguinte, Ivan fez o desafio novamente. Vera voltou-se em direção ao ônibus num giro maluco e quis inexplicavelmente saber da diretora da escola se podia pegar carona até à Gávea. A diretora balançou um “sim” numa expressão de espanto, quando se arrependeu já era tarde. Vera instalou-se no banco da frente, ao lado de Ivan. A turma inteira, com medo, se empilhou no fundão.

A conversa durou apenas dez minutos, mas os efeitos talvez durem ainda mais.

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