Jogo Duro

Por:José Luis Rocha

Guerra, sangue, luto… Assim era a dura rotina nos morros do Anil e Santa Fé, vizinhos em Botafogo. O conflito ia além do tráfico de drogas: saía faísca se um morador de um lado encontrasse um do outro.

Abraçado à perseverança, professor Gil subia para treinar futebol nas duas favelas: no Santa Fé, orientava os meninos no campo do Rajadão; já no Anil, era com as meninas, lá na quadra do Beirute. Molecada agitada. Ossos do ofício.

O treinador congelou quando o seu coordenador avisou que inscrevera as equipes num torneio entre bairros, na Zona Norte. “Puta que o pariu! É a terceira guerra mundial!”, comparou.

Torná-los amigos era utopia. Para encarar o desafio contava com sua assistente Rosa; um mês para preparar os jovens e a fé de que tudo daria certo. Porém, se dependesse da ajuda da rebelde Mariana, não daria:

– É ruim de andar junto com os alemão, hein!

No mesmo tom, Dudu, líder do Santa Fé, ameaçava:

– Aí, se aquelas mina ficá de caô nós vai metê a porrada!

Chegou o dia. A estratégia foi pegar primeiro as meninas do Anil, que ficaram na parte de trás do ônibus; em seguida entrou a rapaziada do Santa Fé. Entre a pólvora e o fogo, Gil e Rosa tentavam disfarçar a apreensão. O silêncio foi quebrado pela batucada e a voz sarcástica de Mariana:

– Eeeuu sô do Anil eu sôôô! Vô dá Porrada eu vô…

De pronto, Dudu levantou e regeu:

– Um, dois, três. Quatro, cinco, mil. Vamo dá porrada nas vadia do Anil!

O professor tomou a rédea:

– Olha só! Ninguém aqui é bandido. Vocês nem se conhecem e já são inimigos? Se não dá pra se comportar como civilizado a gente volta agora! Vamos parar com essa palhaçada!

Surtiu efeito. Em silêncio e constrangidos, se contentaram com a paisagem que voava lá fora. A tensão foi companheira até o fim da viagem. Sorteados os adversários, cada equipe fez três jogos. Na quadra, o time de Santa Fé levou o troféu. No ginásio, as garotas do Anil ganharam as duas primeiras e venciam a final por 3 a 1, contra Acari, donas da casa. Seria barba e cabelo.

– Eu acredito em vocês! – vibrava o professor.

Na plateia os campeões do Santa Fé fingiam desdém, numa espécie de torcida velada. De repente, ao perceber que iria perder mais um título, o diretor da Vila Olímpica parou o jogo, alegando que Taís e Renata, do Anil, estavam descalças. Pela regra, se prosseguissem estariam desclassificadas. Impasse formado. Elas foram de chinelos, talvez nem tivessem tênis… Inesperadamente, Dudu tirou seus tênis e arremeçou na quadra:

– Aí, mina! Vê se dá em tu!

Em seguida, uma chuva inusitada: um por um, os garotos atiraram seus tênis a elas. Enfim, com os calçados cedidos, o Anil confirmou a vitória. Emocionado, Gil desabafou:

– Eu sempre acreditei:

Na volta, banhado de felicidade, o professor enalteceu a atitude dos seus heróis. Depois, exausto, adormeceu… Sequer presenciou a troca de e-mails entre os ex-inimigos. Mais tarde, soube através de Rosa, que rolou até beijo na boca, entre Dudu e Mariana, é claro!

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