Honrar as calças

Por: Carlos Guilherme

A vida no morro nos anos 60 não era fácil. Meu pai e meus irmãos trabalhavam nas obras da cidade enquanto nós suávamos a camisa em casa para sobreviver à pesada rotina do dia.

O barraco onde morávamos era de madeira de feira em chão de terra batida. Não havia luz elétrica e a água vinha do poço de algum vizinho. Mamãe estava sempre ocupada lavando roupa para as madames enquanto eu e minha irmã cuidávamos dos irmãos menores e da casa enquanto sonhávamos com as casas bonitas do Flamengo e de Copacabana.

Carne era item raro em nossos pratos e só acontecia em datas especiais ou quando trazíamos caça, fruto de aventuras na floresta da Pedra da Gávea, atividade freqüente que competia pelo tempo livre usado para corridas de carrinho de rolimã nas ladeiras.

Mais dura que a rotina diária era a rigidez com que o velho Pernambuco controlava as minhas irmãs, principalmente a Dos Anjos, a mais sonhadora. Nordestino de um metro e meio cheio de coragem, pouco tolerante que não admitia as “modernidades que destruíam as famílias respeitadas”; sempre tinha um argumento infalível, um facão na cintura.

Lembro-me como se fosse ontem.

Dos Anjos chegando acompanhada de um negrinho que trabalhava em uma botica na Gávea…

Papai com facão na mão querendo sangrar o negrinho atrevido…

Os gritos de desespero de minha irmã mais nova…

Minha irmã com o rosto lavado de lágrimas afagando meus cabelos e dizendo que às vezes precisamos ser corajosos…

Dos Anjos indo embora com poucas peças de roupa, meia dúzia de conselhos e forte abraço de mamãe…

Aquele domingo foi tempestuoso.

Correu em clima de luto.

Como ainda não honrava minhas calças, não conseguia compreender a gravidade do ocorrido, mas logo percebi que tudo seria diferente dali em diante.

O negrinho que estava cheio de boas intenções, nunca mais foi visto por aquelas bandas, mas soubemos que formou família na Glória com a Dos Anjos, formou-se e foi para o exterior perseguir seus sonhos. “Aquele sim, é cabra corajoso”, dizia meu pai com tom de arrependimento muitos anos depois.

Hoje, aos 87 anos, papai está ansioso como criança.

Quer conhecer o Lucas neto da Dos Anjos que está chegando da França, onde se tornou professor de psicologia.

Vem trazendo a mortalha da avó para cumprir o último desejo, reencontrar sua terra Natal e o pai.

E assim seguimos a vida tendo a perda da inocência como algo inevitável, mas com a certeza de que é possível perseguir sonhos e mudar a realidade.

A Rocinha cresceu, nós crescemos, casamos, tivemos filhos e transformamos o espaço à nossa volta.

Por aqui não há mais roça ou criação de gado, a maioria dos barracos transformou-se em casas de tijolo com piso frio, luz elétrica e água encanada, os facões foram trocados por pistolas e fuzis, o cimento tomou conta de tudo. Não vemos mais carrinhos de rolimã pelas ladeiras e nem mulheres com trouxas de roupa na cabeça…

Mas ainda é possível encontrar garotos e garotas que querem mudar o mundo.

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