“FELIZPE”

Por: Felizpe Frutose

A felicidade é um vírus, que no Brasil, é transmitido através do futebol.

Dois mil e quatorze depois de Cristo.

O hexacampeonato acaba de ser conquistado no novo Maracanã. A nação grita se agita e apita pelas ruas pintadas de verde e amarelo. O comentarista de esporte, com um grande sorriso no rosto, diz ter o prazer de informar, que dessa vez, a França não fez nenhum gol, já o Brasil, três.

O Morro da Fé também está feliz. Os fogos de artifício, as balas traçantes, as cambalhotas, os pagodes e os churrascos. Comemoração de favela. O subgerente do tráfico vibra. O seu gerente foi comido por porco. Agora é ele quem manda, mata e desmanda. As famílias dos barracos mais pobres ganham peixes e frutas. Bondade de bandido. A distribuição de alimentos é o instrumento de popularização, do novo dono do morro. Na praça principal: muitas caixas de produtos roubados de um mercado e um telão transmitindo a final da Copa do Mundo.

A tradicional política do pão e circo.

Orlando estava radiante. Com uniforme de taxista, rosto barbeado e brilho nos olhos azuis. Carícias recebidas na nuca, carícias retribuídas no barrigão de sua esposa. Gisele estava linda. Grávida de quase nove meses, cabelo solto, brincos grandes, vestido largo e verde, pele cor de jabuticaba. Feliz, por estar prestes a dar a luz. O primeiro filho. Feliz, por estar casada. Um ano de muito companheirismo. Feliz, por estar formada. A primeira médica da família. Nervosa, pela tensão dos últimos minutos do segundo tempo. O jogo a deixou com vontade de pular, e pulou.

Eles foram de taxi para a maternidade mais próxima. A hora era aquela. Felipe nasceria em dia de festa. Seria muito bem criado. Seria feliz. O trânsito estava lento. Os carros buzinavam e as kombis falavam. Felipe não quis mais esperar e nasceu.

Dentro do taxi amarelo, surgiu um anjinho de olhos azuis, sujando de vermelho sangue o vestido verde de sua mãe. E chorou. Chorou o seu primeiro choro. O país ganhou mais um brasileiro. Nos dias posteriores, a felicidade ainda estava entre o sangue, dos inúmeros infectados. Os meios de comunicação propagavam o vírus. Entrevistas e mais entrevistas com os jogadores da seleção brasileira.

Bandeiras penduradas nas antenas e grudadas nos postes. O hino nacional cantado nas escolas. Frases patriotas ditas por ricos e por pobres. Orlando não trabalhou na primeira semana de seu filho. Vivenciou aquele momento mágico. Lembrou como foram engraçados, os nove meses anteriores. Lembrou das manhãs, que teve que comprar fruta-pão, para saciar o desejo de Gisele. Soltou uma lágrima de felicidade e sorriu ao chegar ao cartório de registro civil de pessoas naturais.

Thiago, o tabelião, iria em breve, expor os seus quadros em uma galeria. Estava infectado pela felicidade, que assim como pelo futebol, também é transmitido pela arte. E só pensando em seu primeiro ‘vernissage’, digitou na certidão, o nome do Felipe errado. Colocou a letra z depois da i.

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