Feliz por um triz

Por: Diego da Silva

Meia noite. O frio do cano de metal aliviava um pouco a quentura do suor que lhe descia pelas têmporas. Ele segurava fortemente o cabo daquela máquina de tirar vidas, alisando o gatilho com quem alisa um dente dolorido, quase que automaticamente. Sentado à escrivaninha, com a gordura em volta da cintura caindo em dobras por dentro da roupa, respirava ofegantemente, em meio a dor no maxilar.

A coragem que lhe inflava o peito pouco a pouco era transmitida até a ponta dos dedos. Esperava que visse sua vida passar nesses últimos momentos como um filme, mas não conseguia pensar em nada. Não nessa hora; havia decidido que aquele momento seria só seu. Pela primeira vez na vida. Respirou fundo e deixou que aquela sensação durasse por mais alguns segundos. Era quase… Uma paz.

Um barulho, alto e ensurdecedor. O sangue jorrou na parede pelo buraco do outro lado da cabeça, banhando as paredes de escarlate. O paletó branco também se encharcou rapidamente daquela cor.

Seis horas da tarde. O gordo de terno branco chegou em casa. A janta já estava pronta. Comeu feito um porco e minutos depois reclamou da indigestão quase diária. Queria que o tempo passasse rápido. O plano estava todo encaminhado. Riu e brincou com os filhos, com a sogra. Disse que iria tomar banho, mas apenas se trancou no escritório. O tic-tac do relógio seria seu companheiro até a hora final.

Meio Dia. No escritório da boca, separou sua predileta, a prateada que ficava no fundo falso da gaveta. Enrolou-a num pano cor de vinho, Pôs no bolso. Seis horas da manhã. Acordou com dor de cabeça. A esposa abriu as cortinas.

Foi ao médico?

Sim, fui.

E o que era a dor?

Ele se levantou sem responder. Escovou os dentes, tomou banho. Saiu para o trabalho na boca – Coordenou as distribuições das drogas recém-chegadas, conferiu os novos armamentos. A dor não deu trégua nem por um segundo.

Meia noite. Chegou em casa, bêbado. Rasgou o exame médico. Um pedaçinho de papel escrito “tagio avançado” caiu fora da lixeira. Não sentia nada.

Seis horas da tarde. Saiu do consultório. Começou a pensar em seu plano. Na mão, o resultado fatídico do exame médico.

Meio dia. Saiu mais cedo da boca, foi ao médico.

Seis horas da manhã. Acordou, feliz.

Meia noite. Mãe Dandara lhe garantiu, não era nada, ele podia ir no médico e conferir: estava saudável feito um porco. Deitou na cama e adormeceu, feliz.

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