Emergências

Por: Jéssica de Oliveira

Acordou com o choro da pequena Amanda e com os praguejos de Evelyn. Embora preocupado com a saúde da filha, o cansaço pelas noites que passara insone nos corredores do Hospital Geral de Bonsucesso fazia seus olhos pesarem.

Amanda chorava com o arder da febre. A receita dos remédios indicados pelo médico estava sobre a mesa. Evelyn a olhava sem nada dizer. Victor fazia o mesmo. Ambos sabiam que não havia dinheiro para os remédios. Mal havia dinheiro para o leite Ninho da mamadeira.

Fizeram silêncio, deixando apenas que os gemidos da filha ecoassem pelo pequeno quarto-sala em que viviam desde que a barriga da moça apareceu aos 17. Evelyn assustou-se quando Victor levantou-se da cama de repente, calçou o par de havaianas velhas e destrancou o cadeado que prendia a corrente da porta. O seguiu com o olhar em silêncio, sem fazer nenhuma pergunta. Ele saiu.

Caminhou até uma drogaria. Era tarde. Bateu na porta de ferro e a janelinha do atendimento 24 horas se abriu. O rosto magro de outro jovem apareceu. Era Igor, com marcas de olheiras e cabelo desgrenhado, exausto por completar três dias seguidos trabalhando na madrugada mesmo após cumprir seu expediente de oito horas como entregador de remédios durante o dia.

– Boa noite. Pois não?

O jovem pai de família sentiu uma gota de suor escorrer pela testa. Sentia calor embora fizesse frio naquela madrugada. Entregou a receita de remédios. Sem demora, Igor voltou com um embrulho em papel pardo com os inscritos “Obrigado pela preferência. Volte sempre!”

Victor ficou parado olhando Igor estender o remédio pro alguns segundos. Ergueu, enfim, uma das mãos para a janelinha no alto da porta enquanto a outra revirava o bolso da bermuda a procura do dinheiro para pagar os medicamentos. Igor soltou o pacote. Victor correu.

– Ei! Filho da puta! – gritou o rapaz impedido de correr atrás do ladrão. Correu para abrir a porta, mas quando saiu na rua já era tarde.

Victor correu por ruas escuras até que chegasse em casa. Entrou barulhento e ofegante em casa. O bebê voltou a chorar. Trêmulo, entregou o remédio na mão de Evelyn que permanecia calada. Olharam-se fixamente por um longo tempo até que os gritos agudos de Amanda fizeram a jovem mãe voltar-se para a filha.

Quando Amanda aquietou-se, Evelyn chorou. Victor sentou-se ao seu lado e a abraçou, permitindo-se chorar também. Em segredo, pediu perdão a Deus e prometeu pela vida de sua filha nunca mais repetir o que havia feito. Naquela noite, vencidos pelo cansaço das noites insones anteriores, entregaram-se a pesados sonos. Apesar da situação, sentiram-se aliviados. O que importava era a saúde de sua bebê.

No entanto, as horas restantes daquela noite foram de desespero para Igor. Trabalhava como um louco porque precisava pagar a dívida de três mil e duzentos reais de um empréstimo que fez para pagar o tratamento de emergência da mãe. Era pagar ou morrer. E Alexandre, dono da drogaria, não perdoaria a falha do funcionário.

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