E Érika sumiu

Por: Adilson Passos

Ela já não agüentava mais; pedia com jeitinho, com carinho, se fazia de brava, dizia sentir se excluída das amigas, fazia chantagens emocionais, mas nada, a avó era irredutível, estava determinada a controlar a neta de apenas 13 anos de idade, que ela sabia ser muito esperta e não a deixava sair sozinha.

Tinha um acontecimento importantíssimo e Érika queria e iria participar, a qualquer custo. Não fizera nenhum pedido, nem mencionara o fato em casa, pois com isso sua avó se tornaria mais vigilante, e com certeza, tentaria impedir que ela participasse da festa de quinze anos da sua amiga Eliane, que seria no sábado em Rio das Ostras.

Aquela sexta-feira foi um dia atípico; a tarde de céu nublado, com grandes nuvens escuras, já deixava as pessoas preocupadas. Veio de mansinho, um leve vento, arrastando as folhas soltas nas ruas e levantando a poeira. O barulho da água da chuva caindo forte sobre os telhados preocupavam. Mas como a mãe natureza não é lá de dar explicações; choveu, e choveu muito em todo o Grande Jacarepaguá.

Os telefones permaneciam mudos. Nenhuma notícia de Érika; quis Deus, que ela desaparecesse no pior dos dias. As noites de sexta-feira e sábado foram longas e frias. Dona Nênia com a saúde já debilitada estava mal. E deixava todos os familiares ainda mais preocupados, ninguém conseguia dormir. As ruas estavam intransitáveis, e se precisasse de um médico, seria mais um problema.

Mas domingo de manhã cedo, as perturbações começavam a acabar. Como tudo indicava, o verão chegava para brilhar novamente na Cidade Maravilhosa. Lá pelas sete da manhã, ele brilhou ainda mais para Dona Nênia, na comunidade Curicica, em Jacarepaguá.

O sol havia expulsado a chuva, e começava a mostrar os primeiros raios calorosos, aquecendo os corações dos que foram atormentados nas noites anteriores, pelo desaparecimento de Érika. Bem cedo, o dia já prometia, e muitas pessoas faziam planos para o domingo, sob o sol, nas areias escaldantes das praias.

Chegou cheia de saudades, chorando e chamando a avó.

-Vó?, Vó?

Dona Nênia, mesmo com dificuldades, mas tomada por uma onda de alegria e emoção, foi direto abraçar a neta de quem ela sempre cuidou. Ela só estava com a roupa da escola um pouco suja e amassada, mas não apresentava nenhum arranhão e isto já bastava.

-O que houve? Onde você estava menina? Quer acabar com a sua avó, quer?

Cobrou dona Nênia, sem aquele tom enérgico de antes, limpando as lágrimas que teimavam em rolar do rosto da neta. Érika se esforçava para puxar o ar, que parecia lhe faltar nos pulmões e dizia:

-Eu, eu estava no ponto do ônibus, vindo embora aí…

Engasgou-se, as suas palavras saiam com dificuldade, mas continuou falando:

-Aí meu pai passou lá, e me fez entrar no carro dele, para passar o final de semana lá no morro. Eu queria ligar para a senhora e a mãe, mas ele não me deixou avisar. Hoje ele amanheceu bêbado e eu consegui vir embora.

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