Caminhando contra o vento…

Por: Andreia Coutinho

Imagine dois metros quadrados. Agora monte um papelão forrado com lençóis na esquerda, um radinho de pilha na direita, um montinho de sapatos e roupas misturados e embolados preenchendo os cantos vazios. Era ali que vivia o jovem Jailson. Cearense, 19 anos, negro e dono de um sorriso incrível. Ele montou seu cantinho com pedaços de madeira entre as ruas de Alcântara subúrbio de São Gonçalo. Após uma briga quase fatal com seu pai, ele arrumou uma trouxa de roupas, cuecas e sapatos, pegou uma carona com um caminhoneiro e depois de alguns dias de viagem, veio parar no subúrbio carioca.

“Caminhando contra o vento, sem banco e sem documento…” era a canção de Caetano Veloso que Jailson cantarolava, sussurrava, gesticulava e assobiava o dia inteiro. Quem diria que aquele nordestino abriria mão do seu conforto com o argumento de que “a arte existe porque a vida não é o bastante”? O que ele queria era cantar, cantar e cantar. E como cantava bem. Cantava com a alma, fazia seus falsetes e firulas que todo cantor inventa.

Nem precisava de instrumentos. Ele sabia combinar a melodia com acordes invisíveis. Veja bem, acordes invisíveis. Isso remete a um dom raro de cantar a capela, dispensando todos os acompanhamentos que dão vida a uma canção. E era assim que ele estruturava suas artes.

Depois de dois meses dormindo encurvado, comendo de doações de quentinha da igreja e passar frio noturno, Jailson resolveu ligar para casa atrás de seus documentos. Ele queria um trabalho qualquer, e para isso, precisava de seus documentos de identificação e comprovação do nível de escolaridade. Sabendo dos riscos de ficar com o coração partido, discou o código da cidade e ligou:

“Alô, mãe? Não se desespere, não faça perguntas. Eu estou bem! Só preciso dos meus documentos.”

“Como assim, meu filho? Você precisa voltar para cá. Minhas noites tem sido terríveis desde que você se foi.

Todos os dias tenho esperança de te ver chegando no portão de casa”, desabafou dona Zilda, aos prantos.

“Mãe, eu não vou voltar, mas eu prometo que estaremos mais perto, mesmo distantes”

“Como assim, Jailson?”

“Ah, eu falei párea não fazer perguntas”

“Como não?”

“Eu preciso desligar, pois o cartão só tem 7 unidades. Vai cair.”

“Mas você está vivendo de quê?”

“Anota aí, Rua Alfredo Backer, n°223, Alcântara, São Gonçalo… Rio de Janeiro. Procura o CEP naqueles livros que

ficam nos correios. Manda tudo!”

“RIO DE JANEIRO? Como você foi parar tão longe?”

“Amo você! Espero que me perdoe por tudo isso!”

“Jailson? Jailson?”, clamou aquela mãe, em vão. A ligação caiu.

O coração do cearense apertou. Ele não sabia seu destino ao certo. Quem sabia? Seus planos eram: estudar música e tornar-se um popular renomado.

A primeira iniciativa foi no Campo de Santana. Colocou o chapéu no chão e começou a cantar Lulu Santos. E pode até parecer novela mexicana, mas um rapaz de terno, sentado no banco, com um broche no formato de uma clave de SOL e o nome de uma gravadora qualquer, olhou e lhe sorriu…


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