A vida segue

Por: Carlos Guilherme

– Mil e um. Mil e dois. Mil e três. Vamos lá, reaja… – Dialoga solitário o jovem enquanto aplica vigorosa massagem cardíaca no corpo inerte estendido na Avenida Atlântica.

Expectadores observam o trabalho torcendo pela chegada de socorro médico.

Uma senhora chorosa acompanha a tudo em um banco do calçadão.

Uma menina senta-se a seu lado; ela está muito mais preocupada com o choro da anciã do que com o corpo inerte cercado de passantes em trajes de banho.

– Não chora não … – Fala a menina enquanto afaga os cabelos grisalhos da senhora que está quase em posição fetal sobre o banco frio com o rosto escondido entre as mãos.

– Mamãe sempre diz que chorar é coisa de bebê. A senhora sabe falar?

Isolda enxuga as lágrimas com delicado lenço branco bordado em azul e ensaia um sorriso terno voltando-se para a pequena menina enquanto busca força para o diálogo.

– Sei sim meu anjo de candura. É que chorar é uma forma de dizermos para nós mesmos que estamos com dor.

– Talvez aquele médico possa lhe ajudar. Quer que eu chame? – Diz de forma inocente o anjo de olhos negros enquanto aponta para o tumulto na rua.

– É muita atenção de sua parte… – Fala a anciã de cabelos grisalhos enquanto acaricia os longos cabelos castanhos da menina. – Nem o melhor dos médicos pode me ajudar no momento. Minha dor é na alma, daquelas que doem lá dentro sem dar sinais no corpo.

– Sei como é… Quando era pequena mamãe disse que não tinha dinheiro para comprar a boneca que eu queria e doeu muito. Papai disse que deveria ser forte e seguir em frente porque nem sempre conseguiria tudo o que quero e que posso ser muito feliz com o que tenho.

– Seus pais são muito sábios. Há muitos anos meus pais também me ensinaram esta lição, mas a vida me ensinou outra, também muito importante. Não podemos nos conformar com o que temos. Devemos sempre lutar pelo que queremos se não nunca seremos felizes.

– A senhora é feliz?

– Vivi e persegui muitos sonhos. Você sabe que não tem um sonho igual ao outro?

– Assim como as conchinhas que pego na beira da água. Tem de todos os tamanhos, cores e formatos.

– Nossos sonhos são como as conchinhas …

– A senhora é feliz?

– Achava que era, mas acabei de aprender que não é possível termos tudo o que queremos. Terei que me conformar com o que não pude realizar. – Diz a senhora, agora sentada de forma ereta enquanto olha para os esforços infrutíferos do jovem que trabalha para achar um sopro de vida no corpo inerte.

– Ontem mamãe disse que preciso ser menos ansiosa e acreditar mais na vida. Aí eu lembrei que Papai Noel atendeu meu desejo porque fui uma boa menina. Resolvi a questão.

– É isso minha querida. A vida é feita de esperança e devemos sempre acreditar que tudo é possível. – Diz dona Isolda do auge de seus 95 anos dando um grande beijo na testa da menina e levantando-se resoluta.

– Ela vai sobreviver. – Diz o jovem cheio de alegria ao reestabelecer os batimentos cardíacos e a respiração de dona Isolda.

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