Voltei, mamãe!

Por: Cirlene Feliciano

Mais uma vez, a mulher arrasta o garotinho pela mão ladeira abaixo, soltando-o para apoiar a bicicleta, que com seu brilho ofuscante de “saí da loja agora”, atrai os olhares cobiçosos que ela logo repreende em pensamento.

– Gentinha invejosa! A pista está tranquila. O pessoalzinho de sempre para atravessar. Fica aí, filho!

Ela tenta convencer o pequeno a se manter quietinho no acostamento da pista central aguardando-a posicionar a bike para continuar a travessia segurando a barra da sua saia surrada. Ouve-se um baque surdo, o burburinho das vozes sussurrantes, os curiosos que não param de chegar. Mas ela não consegue ver nada disso. Está no mundo do faz de conta que não aconteceu nada. Na terra do desespero onde os membros entorpecidos teimam em se manter eretos, como se tivessem vida própria.

– Senhora, quer ligar para alguém?

– O meu marido… Eu preciso avisar pra ele…, eu preciso.

– Amor! Sou eu! Estou aqui na Estrada da Pedra. O Marcos foi atropelado, mas ele está bem. Vamos para o D. Pedro. É! O hospital! Me encontra lá, ta?

Ela desliga o telefone e o entrega ao policial que socorreu e verificou que a criança estava sem sinais vitais.

– Eu não pude contar! Ahhhhhh! Meu Deus! Eu quero morrer! Como eu vou falar pro meu marido que o meu neném morreu.

E a mulher anda de um lado para outro descalça, pois nessas alturas do campeonato perdera o chinelo, esquecera da bicicleta, que de reluzente e maravilhosa se transformara em um monstro tenebroso e sombrio que impedia as mães de peito palpitante, de segurarem as pequenas e roliças mãos de suas crias protegendo-as de caírem nas garras cruéis do perigoso monstro do asfalto que arranca os pequenos dos braços das desvairadas que uivam como lobas, ainda que no silêncio do seu torpor e agonia.

E a mulher se ajoelha no asfalto escaldante no clímax da sua dor e… Eis que ao longe ouve-se um canto. Sim, para a pobre mulher soou como o mais lindo e perfeito canto. A vozinha fraca da criancinha em seus imaculados cinco aninhos, balbuciou: mamãe… mamãe…mamãe, em meio aos gritos dos transeuntes: TEU FILHINHO ESTÁ VIVO! É um milagre. Já se passaram cinco anos, e Marcos se tornou um lindo e robusto pré adolescente.

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