Um pai de verdade

Por: Vivian Farias

Se chamava Mariana, chamavam-na Marianinha.

Tinha quase 8 anos.

Não tinha pai.Mas não era bem assim…

Morava com sua mãe e o padrasto ha quatro anos no Mutuapira;

na parte “mais legal” desse bairro pobre de São Gonçalo.

Nunca tinha visto aquele a quem chamava de seu “progenitor biológico”.

Sim, seus genes devia a ele.

Somente.

Sabia que ele morava em Arsenal, área industrial de São Gonçalo.

Somente.

Maio era seu aniversario.

O Tio, como chamava seu padrasto

havia perguntado a ela o que queria de presente.

Mais um ano havia passado

e era difícil escolher algo novo com tantos brinquedos que já tinha

– um quarto rosa,

Alem do seu próprio,

ocupado por bonecas como Barbies, Xuxas e Xuquinhas,

com suas mansões e closets

lotados de roupas a La Paris.

Não teria mais graça pedir nada disso.

Ela sabia o que queria,

e isso não tinha pra vender na loja.

Já estava lá, ao seu alcance, porem com a barreira

semiótica de nome,

dentro dessa hierarquia social que da um titulo afetivo por mérito de “fabricação” .

Sim, por que no caso dela era diferente.

Ouviu na escola que “pai é quem cria”

mas seu Tio insistia que ela já

tinha pai, não seria de bom tom chamá-lo assim,

já que ha um (outro) alguém cujo nome consta no documento

de certidão de nascimento.

Vai que um dia “ele” resolve aparecer?

Isso causava nela uma confusão.

Era muito ruim no mês de agosto,

quando tinha que fazer três presentes para três pais;

sendo um para o padrinho, outro pro Tio.

O terceiro ficava na “coleção” de presentes

que o tal portador do nome na certidão não ia buscar.

Nunca foi.

Mas guardava todos os trabalhinhos pra,

se um dia ele aparecesse,

jogar todos em cima dele e provar assim o

tanto de anos que ela esperou por sua aparição.

Mas ainda era maio e,

enquanto agosto não chegasse ela ainda tinha tempo.

Não queria esperar mais, nenhum instante.

O Tio chegou do trabalho e,

como ha muitos anos fazia;

a colocou em seu colo e disse:

– Marianinha, amanha é seu aniversario.

Vai querer outra boneca de presente

ou vai pedir algo diferente esse ano?

Farei um pedido de presente de aniversario diferente,

por escrito.

Vai me escrever uma carta pra pedir o presente?

Imagino o que vem ai,

olha lá, sou eu e não o Papai Noel!

Marianinha sorriu e foi pro seu quarto.

Pegou o papel de carta mais lindo de sua coleção,

suas canetinhas coloridas e escreveu:

“Querido Tio,

No meu aniversario e gostaria de,

antes de tudo,

te agradecer.

Obrigada por todos os passeios no parquinho

e pelas historias antes de dormir.

Você é o melhor amigo pra brincar de serra-serrador que eu tenho.

Quero de presente esse ano poder te chamar de PAI,

já que ouvi esses dias que pai é quem cria.

Você aceita me dar esse presente?

Sim ( ) Não ( )”

O Tio recebeu o bilhete

e sua face de estranhamento deixou a menina arredia,

porem o sim, seguido de lagrimas

e do abraço apertado deu a eles um novo sentido aquele aniversario,

bem menos trabalho durante o mês de agosto

e (pra ela) nenhuma espera durante os outros dias do ano.

Foi o melhor presente da sua vida.

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