Sinhá dançou

Por: Rodrigo Santos

Ogã bateu, sinhá dançou. Desde o cativeiro da senzala até o estábulo social da favela, do primeiro estupro interracial até o cigarro pós-coito desta manhã, nada mudou. É de pobre, é de preto, mata bicho, mas madame diz amém de manhã e laroiê à noite, investe na homeopatia da hóstia e, na hora que a febre aumenta, recorre à amoxicilina do marafo e do charuto.

– O Januário tem que ser meu, Simone! – Ana desceu do carro descompensada.

– Menina, ele é casado! Se mete nisso não… Nunca vi amante virar titular.

– É casado, mas vive mal! Falou para mim que só não larga a maluca da mulher por causa das crianças! Há dois anos que eles não trepam, fia. DOIS ANOS!

– Todos falam isso, Ana. É a primeira aula na escolinha de canalhas.

– Ah, mas o Janu é diferente! E vai ser meu, custe o que custar. Vamos entrar?

– Estou contigo, amiga. Mas isso vai dar merda.

Simone quem ouvira falar daquele centro de umbanda, lá para dentro de Itaúna. Quase se perderam quando saíram da Niterói-Manilha, passaram por buracos que mais pareciam Itaboraí que São Gonçalo. “A gira lá é poderosa, Dona Simone. Feitiço feito ali ninguém desamarra, nem crente de nascença!” Arrependeu-se quase imediatamente quando contou a conversa com a servente para Ana.

O Ogã batia o atabaque furioso quando chegou a vez de Ana, que entrou sozinha no biombo. Esperava encontrar a Rainha Pomba-Gira dos Sete Apocalipses, mas percebeu, pela postura da médium, que algo dera errado.

– Vovó quer falar antes – disse o cambono, um pretinho magrinho que segurava a cuia de coco.

– Mas não vim falar com Vovó, quero falar com a Rainha.

– Shenta aí, Shá Moça. Vovó num morde não.

– Mas Vovó… Meu problema é…

– Sheu pobrema é sheu, tem nada que dividir com jotro. Riê iê iê iê…

– Todo respeito, Vovó, mas se eu não falar com a Rainha vou embora.

– então Vovó vai. Mas Vovó volta, viu? – e o cavalo se estremeceu, cambono assistiu, mudou de cuia pra garrafa, acendeu charuto, desceu Rainha Pomba-gira dos Sete Apocalipses.

– Então, fia, é isho aí mêmo? – e abriu um sorriso que assustou até o cambono.

Vinte minutos depois Ana saía.

– Vambora, Simone.

– Então, como foi?

– Não disse a você? Ele é meu!

– Ei, espera. – falou o cambono, afastando a cortininha.

– Esqueci alguma coisa?

– Não. É com essa aí que Vovó quer falar agora. – E Simone foi, mais medrosa que cética, com seu agnosticismo fajuto de internet.

Na noite seguinte, Januário chegou à casa de Ana com mala e cuia. Largou para trás a mulher doente e os dois filhos, ainda adolescentes. Dois anos depois, quando Ana foi abandonada por uma ninfeta, Simone soube por ela que sua ex-mulher havia se matado e os filhos tinham se perdido no mundo. Na mesma hora veio à memória o cheiro de charuto barato e vinho azedo daquela noite, junto com as palavras da Vovó:

– Shua amiga qué um final feliz, Shá Moça, mas shó tem final aquilo que acaba. E não dá pra todo mundo shê feliz neshe mundo, alguém tem que shê triste, num é? Riê iê iê iê…

Sinhá dançou.

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4 thoughts on “Sinhá dançou

  1. a analogia entre o tipo de terapia medicamentosa e religiosidade me fascinou! os buracos de itaboraí me tiraram umas boas risadas. li o texto com muito prazer.. uma leitura gostosa! Parabéns!!!

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