Sagacidade paterna

Por: Yasmin Thayná

O pai é o tipo de cara que sai de casa com 50 reais e volta com 250. Ele não é traficante de drogas, bicheiro, jogador de caça níquel, não frequenta bingo, não é garoto de programa nem mesmo ladrão. Ele é traficante de sagacidade empreendedora e mobilizadora. E se eu puder herdar algo dele, quero a sagacidade.

Osmar é seu nome. Chega a arrancar suspiros profundos de respeito no bairro quando alguém ousa a pronunciar. Só pude perceber a rede extensa de parceiros que ele tem quando ele fez um peer-two-peer, o famoso mutirão, para concretar uma laje da casa da avó. Foi uma mobilização regada a disco de vinil com o rock’n’roll mais clássicos da década de 80: a mesma época que faz seus olhinhos verdes passearem por todo o universo, transcender 30 anos em apenas um piscar de olhos, malabarizando as gotas de lágrimas a 1 centímetro de suas bochechas. Foi nessa época que se apaixonou de verdade. Amou.

Aos 18, curtiu uma menina nas festas em que frequentava no bairro de Santa Rita, em Nova Iguaçu, com os “brabos”, que disfarçavam as pétalas de rosa com a quantidade exacerbada de pelos que carregavam no peito.

“Seu nome era Márcia. Negra, bem negona. Parecia etíope. Era poetisa e sua maior obra é esse caderno de sonetos, versinhos e poesias que ele me presenteou antes de morrer. Você e seu irmão quando pequenos usaram muito esse caderno para se alfabetizarem. Passavam o dia inteiro copiando e até inventavam novos versinhos. Nunca ensinei poesia a vocês, por não ser poeta, mas vocês conseguiram entender a lógica quando pequenos. Mas este caderno, filha, afirma o quanto eu sou um homem feliz e o quanto fui amado por esta mulher. E não ter ela aqui dói. Mas toda a força que ela deixou para mim, faz dessa carcaça forte. E tenho a certeza disso todas as vezes que abro este caderno, leio um soneto desses escrito com caneta bic da cor azul e ilustrado com caneta vermelha”, disse o pai, com a cabeça erguida, as mãos sobre o joelho e as pálpebras sujas de cimento já limpas de lágrimas, que o malabarismo não conseguiu segurar.

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