Quando a liberdade transpassa o medo

Por: Abrahão Turko

Aquele beijo derradeiro era o mais próximo que ela poderia estar em lembrança, de seu amor. Foram dias fel, aqueles vividos, depois que ela reuniu toda a família pra dizer que Lúcia era mais que uma amiga.

Maria Clara tinha o mesmo objetivo de vida de todo mundo, o de ser feliz. E talvez por isso tenha a vida inteira se condicionado a enquadra-se na felicidade dos outros, mentia pra si mesma. Negava-se.

Chegou um momento em que já não queria esperar pelo chamou de libertação pessoal e para viver esse tardio sonho, ela seria capaz de renegar a própria família, mas sofria em silêncio pela única filha que não engolia o fato da mãe ter redescoberto sua sexualidade logo na maturidade.

Clara, que na verdade era escura, corresponde há um número significativo de pessoas que redescobrem sua sexualidade após anos de autonegação forçada, abafada e amordaçada por valores familiares, a religião e a vida no subúrbio: lugar que não facilita muito a vida de quem mantém hábitos diferenciados. Mesmo que entre quatro paredes.

Ela vai pra lage, recolhe suas roupas já quaradas põe no tacho e debruça os cotovelos russos no tijolo cru do para-peito. Olha o pôr-do-sol fumando um cigarro filtro branco e por um instante desejou ser diferente, e continuar como a dona de casa que sempre foi com seu lencinho e grampos presos no cabelo, o cheiro do alho dourado na panela, e arrumando a filha pra escola.

Não parava de pensar que sua vida poderia seguir do mesmo jeito de sempre até ali. Mas ao mesmo tempo vinha à imagem daquela terça-feira no mercado, que mudaria seus rumos dali pra frente.

Uma mulher mais nova e que trabalhava no setor das massas, parou os olhos em Clara que instantaneamente sentiu seu corpo estremecer. Nunca fora desejada daquela maneira nem pelo próprio marido, que dava o sangue de 6h as 15h na Flores. Reginaldo se gabava de sua virilidade na cama.

Os homens são sexualmente egoístas, e o sexo é bom pra eles, ta bom pra parceira também. Quase nunca estava bom para Clara. E num encontro escondido, cheio de culpa, medo e vergonha, sentiu pela primeira vez sua nuca arrepiar-se, o coração dar disparos cadenciados, escorrer, encharcar as pernas e os lençóis. Olhou dentro dos olhos de Lúcia, e ainda trêmula só conseguiu deixar cair uma lágrima de emoção.

Essas doces lembranças eram sempre acompanhadas da culpa e da tristeza imensa que estava sentindo pelo afastamento de sua filha, a pessoa que ela mais se preocupava naqueles dias amargos.

Olhava o pôr-do-sol naquela tarde, se perguntava se um dia experimentaria a felicidade integral que tanto merecia olhar triste pro sol que vai embora, naquele momento a luz solar representava sua esperança que também já parecia distante.

Deu um longo suspiro, que foi interrompido por uma pequena e delicada mão que deslizou sobre seu ombro. Virou-se e foi abraçada até sufocar seu coração estava anestesiado, e ainda havia um pouco de sol no céu.

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