PULA!

Por: Vinícius Freitas Tomas

Ouvi os barulhos, som de aglomeração, buzinas, gritos, risadas. Tentei ignorar. Estava mais interessado em me enrolar nas cobertas e curtir o começo de noite fria, deitado, vendo TV. Lembrei do frisson besta causado pela queda de um balão alguns dias antes e resolvi nem levantar. Meus vizinhos sempre foram meio malucos, e se impressionavam com pouco, pensei.

Apesar do barulho crescente procurei ignorar levantando para ver o motivo da confusão apenas quando ouvi os gritos uníssonos: “Pula! Pula! Pula!”.

Ainda enrolado em um edredom velho abri a porta da varanda. Uma multidão em frente a minha casa, de costas para a mim, olhando para cima. Olhando para as torres da light, onipresentes no meu bairro. Entortei o pescoço e vi, no topo da torre, aquela figura. Homem, mulato, de jeans e camiseta, foi o pouco que distingui. Voltei a olhar para a multidão e vi minha avó, uma das mais animadas a gritar:

“Pula!”

Minha avó sempre teve uma relação estranha com a morte. Quando sabia de algum assassinato nas cercanias do bairro ela largava o que estivesse fazendo e peregrinava até o lugar, distante ou não, levantava o lençol ou lona que cobria o defunto e dava uma boa olhada nele. Ela me levou em algumas dessas excursões, para não deixar o neto sozinho em casa.

Investigava a vida do morto, o autor e motivo do crime. Recolhida a informação ela voltava para informar as vizinhas, com a devida edição exagerada. Minha avó foi a primeira repórter que conheci. Foi marcante o dia do tiroteio na rua de casa. Todos se esconderam e ela correu para ver a ação na rua. Vesti um casaco, desci as escadas e fui saber o que estava acontecendo.

– Aquele homem subiu na torre e quer pular – disse minha avó com um sorriso sádico.

– Óbvio vó – respondi – mas você sabe o por que?

– Chifre, meu filho, isso é chifre. Isso é coisa de corno.

Não levei fé, não acreditava que uma traição levasse um homem a tamanha estupidez. No entanto, a fofoca entre os vizinhos confirmou a certeza de minha avó. Não apenas falavam sobre a traição, mas davam detalhes sobre o potencial suicida. Coisas como o nome da sua mulher, dos supostos amantes, endereço, emprego e gosto pela cachaça. O burburinho foi interrompido por um berro vindo do alto: “Eu vou pular!”

– Pula! Pula! Pula! Respondeu a multidão.

Ele queria atenção. Pois bem, conseguiu a atenção de todos do bairro. E do corpo de bombeiros e polícia militar, que chegavam ao local com carros, caminhão e ambulância.

Mesmo naquele circo armado, com holofotes, multidão e bombeiros começando uma escalada, fazia falta a presença da mulher que causou tudo isso, para dar tintas mais fortes ao drama. E ela apareceu, furando o bloqueio de curiosos aos empurrões e gritos de “me deixa passar que eu sou a esposa dele”

– Piranha! Piranha! Piranha! – recepcionou o público.

Talvez o suicida tenha percebido a presença dela. Ele jogou um enorme parafuso da torre em direção a multidão, que dispersou e deu espaço para a queda que veio a seguir. Não sei se por desequilíbrio físico ou mental, se o homem caiu ou pulou.

Final Feliz para a minha avó!

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