Ouviu? Foi tiro!

Por: Yolanda Soares de Souza

Final feliz é complicado, mas, desde o momento que a pessoa vai da vida para a morte e volta para a vida, e apesar de algumas sequelas tipo – um ouvido sem audição, um rosto com paralisia facial, um olho com vista turva, e um projétil no crânio… – Ela está viva! Então, isso é um final feliz.

Mil novecentos e setenta e três, Engenho da Rainha.

Michele, um anjo de menina, já criança trabalhava para ajudar no sustento dos nove irmãos. Começou como doméstica aos treze anos, aos quinze mudou para auxiliar de costura. E como parou de estudar cedo, resolveu voltar. Sua irmã mais velha que também parara de estudar para trabalhar, além de apoiar a irmã, resolveu voltar à escola.

Elas queriam realizar seus sonhos. Sabiam que para isso, sem estudos ficaria mais difícil. Chegaram cansadas do trabalho, mas isso não as tirou do foco, e resolveram que não podiam esperar mais. Vai que de repente as vagas acabam – pensaram elas – Além de tudo as duas meninas estavam cheias de vontade e com sede do saber.

Já eram dezenove horas de uma noite bonita de final de verão, a lua estava maravilhosa e tudo estava conspirando para um final de noite feliz. Foram à escola, fizeram suas matrículas e já voltavam para casa.

Naquela época a criminalidade ainda engatinhava, mas já existia, e preocupava a população do Rio. Michele tinha dezesseis anos e sua irmã Marcele dezoito. A felicidade estava estampada no rosto das duas que sabiam que aquela foi a coisa mais certa que fez nos últimos anos. Porém a alegria pode ter sido culpada pela distração das duas, a ponto de não vêem a movimentação de gente correndo mais a frente.

Michele falou para a irmã – ouviu? Foi tiro! – Naquele momento caiu! – Marcele achou que a irmã tinha se jogado no chão para se proteger do tiro, desesperada, começou a puxar a irmã que caiu de bruços e como não viu reação alguma, começou a gritar por socorro, e a rezar para o santo de sua devoção salvar a irmã.

Foi quando de repente virou o corpo dela para cima e viu muito sangue saindo pelo nariz, pela boca, pelo ouvido. Seus gritos foram ouvidos por pessoas que moravam nas casas da rua, que rápido ligaram para o hospital.

Passados alguns minutos, apareceu um carro da polícia, os policiais não queriam levar Michele, mas pressionados pelo irmão, que acabara de chegar, pegaram Michele e a levaram para o hospital. Sua irmã foi junto chorando muito, e rezando, pois era a única coisa que poderia fazer naquela hora.

Dois dias depois, a família ficou sabendo pelos médicos, que Michele teve sorte, a bala entrou no rosto e não pegou nenhum órgão vital, e também que não poderiam retirar o projétil, pois estava colado no crânio e na veia aorta, e se retirassem poderia ser fatal! Hoje, depois de trinta e nove anos, Michele está casada, têm uma filha, três netos e vive com suas sequelas.

Se fosse hoje, será que Michele teria sobrevivido diante de tantas armas pesadas que existem? As pessoas têm a mania de dizer que foi bala perdida. Mas na verdade, perdida não é à bala, perdida é a pessoa que a bala encontra e não perdoa, mata.

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